Ventilometria e Garmin: em quem devo confiar?

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Quem treina com relógio esportivo já passou por isso: você olha para o Garmin, vê suas zonas de frequência cardíaca, ritmo, VO₂máx, carga de treino e pensa: “Será que posso confiar nesses números?

A dúvida fica ainda maior quando a pessoa faz uma ventilometria de esforço, também conhecida como teste cardiopulmonar de exercício, e percebe que as zonas do exame nem sempre batem com as zonas sugeridas pelo relógio.

Então vem a pergunta: devo seguir o Garmin ou a ventilometria?

A resposta mais simples é: se você fez ventilometria, confie nas zonas da ventilometria. Use o Garmin como ferramenta de acompanhamento, não como substituto do exame [1–4].

Primeiro: o que é ventilometria de esforço?

A ventilometria de esforço é um exame feito durante o exercício, geralmente em esteira ou bicicleta, que avalia como o corpo responde ao esforço físico.

Durante o teste, são analisados dados como:

● consumo de oxigênio;
● produção de gás carbônico;
● ventilação;
● frequência cardíaca;
● limiares ventilatórios;
● capacidade cardiorrespiratória;
● resposta fisiológica ao exercício.

Na prática, ela ajuda a identificar com mais precisão as chamadas zonas de treinamento, como o VT1 e o VT2, que indicam momentos importantes da transição entre esforço leve, moderado e intenso.

Por isso, quando o objetivo é definir zonas fisiológicas reais, a ventilometria é considerada mais precisa do que relógios esportivos e outros dispositivos vestíveis. O material analisado reforça que, para determinar VT1, VT2, limiar anaeróbio e zonas aeróbias/anaeróbias, a ventilometria deve ser priorizada em relação às zonas automáticas do Garmin.


E o Garmin? Ele é ruim?

Não. Muito pelo contrário.

O Garmin pode ser uma excelente ferramenta para acompanhar o treino, monitorar frequência cardíaca, observar evolução, controlar intensidade e organizar a rotina esportiva.

O ponto principal é entender que o Garmin estima algumas informações. Ele usa dados como frequência cardíaca, ritmo, velocidade, GPS, VO₂máx estimado, variabilidade da frequência cardíaca e, em alguns casos, limiar de lactato estimado [5–7].

Essas estimativas podem ser úteis, principalmente para atletas recreativos. Porém, elas não têm a mesma precisão de um exame feito em laboratório.

Estudos mostram que o Garmin pode apresentar boa precisão para frequência cardíaca, especialmente em intensidades moderadas e quando usado com cinta cardíaca [7,8]. Também pode estimar VO₂máx e frequência cardíaca no limiar com desempenho razoável [5,6]. Porém, apresenta maior margem de erro para velocidade, pace e zonas automáticas baseadas em limiar [6,9].

Então, onde está o problema?

O problema não é usar o relógio. O problema é achar que ele enxerga tudo o que acontece dentro do corpo.

O Garmin mede ou estima sinais externos e internos, mas ele não mede diretamente sua troca gasosa, sua resposta ventilatória ou seus limiares fisiológicos reais como a ventilometria faz [1–4].

Por exemplo: duas pessoas podem correr no mesmo pace e com frequência cardíaca parecida, mas terem respostas metabólicas completamente diferentes. Uma pode estar em zona confortável, enquanto a outra já está próxima do limite.

É por isso que um exame individualizado faz tanta diferença.

Em qual zona devo confiar?

A orientação prática é:

Se você fez ventilometria:
confie nas zonas do exame.

Se você usa Garmin:
use o relógio para acompanhar se está treinando dentro das zonas definidas pelo exame.

Se você ainda não fez ventilometria:
o Garmin pode ser usado como referência inicial, principalmente pelas zonas de frequência cardíaca, mas com cautela.

O ideal, especialmente para quem busca performance, segurança ou prescrição mais precisa, é configurar manualmente o Garmin com os dados obtidos na ventilometria. Essa é a forma mais segura de unir a precisão do exame com a praticidade do relógio no dia a dia.

Frequência cardíaca: o Garmin costuma funcionar bem?

Sim, principalmente em treinos contínuos e de intensidade leve a moderada.

Estudos comparando dispositivos de pulso com métodos de referência mostram que a frequência cardíaca medida por wearables pode ser bastante precisa em repouso e em exercícios moderados [7,8]. Porém, essa precisão pode cair em intensidades altas, movimentos bruscos, suor excessivo ou quando o relógio não está bem ajustado ao punho [8–10].

Por isso, para quem treina com metas específicas de zona, a recomendação é: use cinta cardíaca sempre que possível.

A cinta tende a oferecer uma leitura mais estável da frequência cardíaca, principalmente em treinos intervalados, tiros, subidas, treinos longos ou sessões de maior intensidade.

Um exemplo simples

Imagine que o Garmin diga que sua zona 3 começa em 150 bpm.

Mas, na ventilometria, o exame mostrou que seu corpo já começa a mudar de padrão ventilatório aos 142 bpm.

Se você seguir apenas o Garmin, pode achar que está fazendo um treino moderado, quando na verdade já está trabalhando mais próximo de uma zona intensa.

Com o tempo, isso pode gerar excesso de carga, fadiga, queda de desempenho ou dificuldade de recuperação.

Agora, quando você usa a ventilometria para definir as zonas e o Garmin para monitorar o treino, os dois passam a trabalhar juntos.

Para quem a ventilometria é indicada?

A ventilometria pode ser muito útil para:

● corredores;
● ciclistas;
● triatletas;
● praticantes de atividade física que querem treinar com mais precisão;
● pessoas em reabilitação cardiopulmonar;
● pacientes com queixas de cansaço aos esforços;
● pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares;
● indivíduos que querem iniciar exercício com mais segurança;
● atletas que buscam melhora de performance.

Ela não serve apenas para atletas de alto rendimento. Também pode ajudar pessoas comuns a entenderem melhor seus limites e treinarem com mais segurança.

O melhor caminho: tecnologia + avaliação individualizada

O relógio é um aliado. A ventilometria é uma avaliação fisiológica.
Um não precisa excluir o outro.

Na prática, o melhor cenário é:

● Fazer a ventilometria para descobrir suas zonas reais.
● Configurar o Garmin com os dados do exame.
● Usar o relógio para controlar os treinos no dia a dia.
● Reavaliar periodicamente, porque o corpo muda com o treinamento.

Assim, o treino deixa de ser baseado apenas em estimativas e passa a respeitar melhor a sua fisiologia.

O Garmin é uma ferramenta prática, moderna e muito útil. Ele ajuda a acompanhar a rotina, controlar intensidade e observar evolução.

Mas, quando falamos em definir zonas fisiológicas com precisão, a ventilometria de esforço continua sendo a referência mais confiável [1–4].

Então, a resposta é simples:

Fez ventilometria? Confie nela.
Tem Garmin? Use-o para seguir melhor o que o exame mostrou.

Na RespiCare, acreditamos que treinamento e reabilitação precisam ser individualizados. Cada corpo responde de um jeito, e entender essa resposta é o primeiro passo para treinar melhor, com mais segurança e mais resultado.

Referências:

Arnet J, Knaier R, Schoch R, et al. Determination of Ventilatory Thresholds Using Near-Infrared Spectroscopy in Recreational Endurance and CrossFit Athletes. International Journal of Sports Physiology and Performance. 2025. doi:10.1123/ijspp.2024-0265.

Sendra-Pérez C, Sánchez-Jiménez JL, Marzano-Felisatti JM, et al. Reliability of threshold determination using portable muscle oxygenation monitors during exercise testing: a systematic review and meta-analysis. Scientific Reports. 2023. doi:10.1038/s41598-023-39651-z.

Contreras-Briceño F, Cancino-López J, Espinosa-Ramírez M, et al. Estimation of ventilatory thresholds during exercise using respiratory wearable sensors. npj Digital Medicine. 2024. doi:10.1038/s41746-024-01191-9.

Kaufmann S, Gronwald T, Herold F, Hoos O. Heart Rate Variability-Derived Thresholds for Exercise Intensity Prescription in Endurance Sports: A Systematic Review of Interrelations and Agreement with Different Ventilatory and Blood Lactate Thresholds. Sports Medicine – Open. 2023. doi:10.1186/s40798-023-00607-2.

Carrier B, Helm MM, Cruz K, et al. Validation of Aerobic Capacity (VO₂max) and Lactate Threshold in Wearable Technology for Athletic Populations. Technologies. 2023. doi:10.3390/technologies11030071.

Lu C, Cui W, Zhu Z, et al. Validity of smartwatch-derived estimates of lactate threshold heart rate and pace compared to graded exercise testing. Frontiers in Physiology. 2025. doi:10.3389/fphys.2025.1621996.

Ho W-T, Yang Y-J, Li T-C. Accuracy of wrist-worn wearable devices for determining exercise intensity. Digital Health. 2022. doi:10.1177/20552076221124393.

Jamieson A, Jones S, Chaturvedi N, et al. Accuracy of smartwatches for the remote assessment of exercise capacity. Scientific Reports. 2024. doi:10.1038/s41598-024-74140-x.

Heiber M, Schittenhelm A, Schlie J, et al. Garmin Fénix 7® Underestimates Performance at the Lactate Threshold in Comparison to Standardized Blood Lactate Field Test. Open Access Journal of Sports Medicine. 2024. doi:10.2147/OAJSM.S444568.

Oropesa P, Sánchez-Pay A, Conesa-Ros E, et al. Are We Really Training at the Desired Intensity? Concurrent Validity of 16 Commercial Photoplethysmography-Based Heart Rate Monitors. Applied Sciences. 2026. doi:10.3390/app16010126.

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