Eu não estava trabalhando. Estava de férias, de verdade, daquelas com café ruim de aeroporto e mala mal fechada.
Mas quem trabalha com pulmão não desliga o olho.
A primeira foto é uma placa em Portsmouth, parafusada num muro de tijolo: proibido fumar e vapear naquele prédio. Bonitinha, discreta, elegante.

A segunda foi tirada do outro lado da rua, quase no mesmo quarteirão: uma loja de conveniência com três palavras na fachada, nessa ordem, VAPES, DRINKS, SNACKS. O vape vem antes da bebida e da comida. Não é detalhe de design. É hierarquia comercial.

A terceira foi em Londres. Uma esquina inteira envelopada em preto, com o nome de uma marca de vape onde deveria estar o nome da loja. Do lado, um pôster de colaboração com uma equipe de Fórmula 1, edição limitada, sabor de mamão apimentado.
Mamão apimentado. Fórmula 1. Numa esquina onde criança passa indo para a escola.
E o que mais me marcou não foram as lojas. Foi quem estava usando. Adolescente na fila do ônibus. Homem de terno esperando o metrô. Senhora de 70 e poucos com sacola de compras. E, num parque, um rapaz em cadeira de rodas, com um padrão respiratório que eu reconheceria de olhos fechados, lesão medular alta, dando uma tragada num pod colorido.
Aquela imagem me acompanhou o resto da viagem. Volto nela no fim do texto.
O tamanho real da coisa
O Reino Unido não é caso isolado, é só o lugar onde eu estava. A OMS estima mais de 100 milhões de usuários de cigarro eletrônico no mundo, sendo cerca de 86 milhões de adultos e 15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos.
Na Grã-Bretanha, os dados de 2026 da ASH mostram 10% dos adultos vapeando, algo perto de 5,5 milhões de pessoas. Interessante: 11% ainda fumam cigarro comum. Ou seja, as duas coisas convivem, uma não substituiu a outra.
E no Brasil? Aqui a gente tem um detalhe curioso: é proibido vender, mas 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos usaram vape no último ano. Cinco vezes mais do que o cigarro tradicional na mesma faixa (1,7%). O dado é do LENAD III, da Unifesp, que ouviu mais de 16 mil brasileiros em 349 municípios.
O número que me tira o sono é outro, do mesmo levantamento: entre os adolescentes que experimentaram, 76,3% passaram a usar de forma regular.
Experimentar cigarro comum e achar horrível é quase um rito de passagem. Todo mundo conhece alguém que tossiu, passou mal e nunca mais. O vape não te dá essa chance de escapar. Ele é doce, é frio, não arde, e o sal de nicotina entrega concentrações que o cigarro convencional nem sonha. Comparação legal, aqui do Brasil: o cigarro tradicional é limitado a 1 mg de nicotina por unidade. Os líquidos de vape chegam a 57 mg por mililitro.
Não existe “só experimentei”. Existe “ainda não percebi”.
O que os estudos mostram
Vou direto, sem rodeio, porque essa parte importa.
Pulmão. Uma revisão integrativa publicada no European Respiratory Journal juntou estudos epidemiológicos e de laboratório e encontrou associação entre uso de cigarro eletrônico e asma (OR ajustado 1,39) e DPOC (OR ajustado 1,49), já controlando para tabagismo convencional. Uma revisão sistemática mais recente, de 2025, mostrou que quem usa os dois (vape + cigarro) tem risco bem maior de sintomas respiratórios e de DPOC comparado a quem nunca usou nada.
Coração e vasos. Um estudo do grupo da Universidade da Califórnia mediu dilatação mediada por fluxo, o teste que mostra se o endotélio, o revestimento interno dos seus vasos, ainda funciona direito. Usuários crônicos de cigarro eletrônico tiveram prejuízo comparável ao de fumantes crônicos. Não “um pouquinho menos ruim”. Comparável.
A porta de entrada. Duas metanálises separadas chegaram a números parecidos: adolescentes que usam vape têm de 3 a 4 vezes mais chance de começar a fumar cigarro comum depois. Vale a honestidade científica aqui — os próprios autores de uma delas apontam que os estudos têm ajuste incompleto de fatores de confusão. Quem vapeia aos 14 talvez já fosse um adolescente com maior propensão a fumar. Não é uma relação de causa provada em laboratório. Mas é um sinal consistente que aparece em país após país, e política pública não espera prova perfeita para proteger criança.
A parte inconveniente que a gente também precisa dizer
Se eu só te contasse o que está acima, eu estaria fazendo campanha, não informação.
A revisão Cochrane de 2025 sobre cigarro eletrônico para cessação do tabagismo reuniu 104 estudos e mais de 30 mil participantes. Conclusão com alta certeza de evidência: cigarro eletrônico com nicotina ajuda mais gente a parar de fumar do que adesivo e goma de nicotina. Cerca de 3 a 4 pessoas a mais param, a cada 100 que tentam.
Isso é real e eu não vou fingir que não é.
Mas repare no desenho do estudo: adulto, já fumante, dentro de programa de cessação, usando produto regulado, com acompanhamento. Isso não é o menino de 15 anos comprando pod de melancia gelada no Instagram porque o amigo tem um. São duas conversas completamente diferentes que o marketing adora misturar.
Quem já fuma há 20 anos e troca cigarro por vape provavelmente reduz dano. Quem nunca fumou e começa no vape não reduziu nada. Adicionou.
O Reino Unido proibiu os descartáveis. Deu certo?
Deu, mais ou menos, e o “mais ou menos” é a parte interessante.
Desde 1º de junho de 2025, é ilegal vender vape descartável no Reino Unido. O argumento principal foi ambiental (estimava-se 5 milhões de descartáveis jogados fora por semana, cada um com bateria de lítio dentro), mas o uso por adolescentes pesou bastante.
Um ano depois, entre jovens de 11 a 17 anos que vapeiam, a fatia que usa principalmente descartáveis caiu de 42% para 13%. Entre adultos, de 24% para 8%.
Só que o mercado não sumiu, migrou. Os pods recarregáveis explodiram em popularidade, oferecendo praticamente a mesma experiência. E os conselhos municipais britânicos apreenderam mais de 1,3 milhão de produtos ilegais relacionados a vape em 2025.
Traduzindo: a proibição mudou o formato do produto muito mais rápido do que mudou o comportamento das pessoas. É exatamente o tipo de resultado que a gente precisa olhar sem torcida.
E aqui no Brasil?
O Brasil escolheu o caminho mais duro do mundo, e escolheu cedo.
Desde 2009, a Anvisa proíbe comercialização, importação e propaganda. Em abril de 2024, a RDC 855/2024 ampliou tudo: fabricação, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda também estão proibidos, e a importação passou a ser vedada até para uso próprio, inclusive na bagagem de mão. Uso em ambiente coletivo fechado é proibido desde 1996, pela Lei 9.294.
O que não é proibido é o uso individual. Ninguém vai ser multado por dar uma tragada. E é aí que mora o nó: temos uma proibição de oferta que convive com um mercado paralelo enorme e um consumo que não para de crescer, principalmente entre 18 e 24 anos, faixa em que o Vigitel encontrou a maior prevalência de uso atual.
No Senado, o PL 5.008/2023 quer regulamentar em vez de proibir. Cerca de 80 sociedades médicas se manifestaram contra. Em fevereiro de 2026, Anvisa e MPF assinaram acordo para apertar a fiscalização do comércio ilegal. Somos hoje um entre cerca de 35 países que proíbem esses dispositivos, ao lado da Austrália (que só permite com receita médica) e de Hong Kong, que está indo além e proibindo até a posse.
Eu não vou fingir neutralidade: como fisioterapeuta respiratória, a experiência britânica me convenceu de que liberar sem trava vira floresta de loja com sabor de sobremesa em esquina de escola. Mas proibir e não fiscalizar também não é política, é discurso. Você pode discordar de mim, e a discussão é legítima.
Aquele rapaz na cadeira de rodas
Volto nele, porque foi por causa dele que eu decidi escrever isso.
Quem tem lesão medular, sobretudo cervical ou torácica alta, já vive com músculo respiratório enfraquecido, capacidade vital reduzida e, o mais crítico, tosse ineficaz. A tosse é o sistema de limpeza do pulmão. Sem ela, secreção acumula, atelectasia aparece, pneumonia acontece.
Complicações respiratórias são a principal causa de morbidade e mortalidade nessa população, respondendo por até 42% dos óbitos em algumas séries. E histórico de tabagismo é um dos preditores independentes de mortalidade nesse grupo, junto com o VEF1 percentual do previsto.
Ou seja: a pessoa que menos pode perder função pulmonar é justamente quem estava ali, no parque, tragando aerossol de nicotina em pleno sol de julho.
Não escrevo isso pra julgar ele. Escrevo porque ninguém nunca sentou com aquele rapaz e explicou o que a tosse dele já não consegue fazer. Explicar isso é o nosso trabalho. E a gente falhou nele.
Dia 15 de agosto, Parque da Cidade
Por isso a RespiCare vai para o parque.
Sábado, 15 de agosto, dentro do Agosto Branco, vamos fazer uma caminhada no Parque da Cidade justamente sobre esse tema. Não vai ter palestra de dedo em riste. Vai ter gente caminhando, conversando, e uma equipe fazendo espirometria gratuita e avaliação respiratória ali mesmo, no meio do parque.
Espirometria é aquele exame em que você sopra num aparelho e ele te devolve um número. Parece bobagem. Mas, para muita gente, é a primeira vez que a própria capacidade pulmonar deixa de ser abstrata e vira um dado na tela, com um valor previsto do lado pra comparar.
Já vi adolescente mudar de ideia sobre vape depois de olhar o próprio gráfico. Não depois de ouvir um adulto falando que faz mal. Depois de ver.
A inscrição é solidária e reverte para a Rede Feminina de Combate ao Câncer de Brasília.
Se você usa vape, venha assim mesmo. Sério. Ninguém vai te dar sermão, e você provavelmente vai querer saber seu número mais do que qualquer pessoa que estiver lá.
Horário e ponto de encontro: 08:30h no estacionamento 13. Inscrições pelo WhatsApp da RespiCare.
REFERÊNCIAS:
1. World Health Organization. WHO global report on trends in prevalence of tobacco use 2000-2024 and projections to 2030. Geneva: WHO; 2025.
2. Universidade Federal de São Paulo, Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas. III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III). São Paulo: Unifesp; 2025.
3. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 855, de 23 de abril de 2024. Diário Oficial da União. 2024 abr 26.
4. Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2024: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
5. Wills TA, Soneji SS, Choi K, Jaspers I, Tam EK. E-cigarette use and respiratory disorders: an integrative review of converging evidence from epidemiological and laboratory studies. Eur Respir J. 2021;57(1):1901815.
6. Mohammadi L, Han DD, Xu F, Huang A, Derakhshandeh R, Rao P, et al. Chronic e-cigarette use impairs endothelial function on the physiological and cellular levels. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 2022;42(11):1333-50.
7. Chan GCK, Stjepanović D, Lim C, Sun T, Shanmuga Anandan A, Connor JP, et al. Gateway or common liability? A systematic review and meta-analysis of studies of adolescent e-cigarette use and future smoking initiation. Addiction. 2021;116(4):743-56.
8. O’Brien D, Long J, Quigley J, Lee C, McCarthy A, Kavanagh P. Association between electronic cigarette use and tobacco cigarette smoking initiation in adolescents: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health. 2021;21:954.
9. Lindson N, Butler AR, McRobbie H, Bullen C, Hajek P, Begh R, et al. Electronic cigarettes for smoking cessation. Cochrane Database Syst Rev. 2025;CD010216. doi:10.1002/14651858.CD010216.pub10.
10. Action on Smoking and Health. Use of vapes and other novel tobacco and nicotine products among adults in Great Britain. London: ASH; 2026.
11. Action on Smoking and Health. Disposable vape use falls sharply during the first year of the ban. London: ASH; 2026 mai 29.
12. Brown R, DiMarco AF, Hoit JD, Garshick E. Respiratory dysfunction and management in spinal cord injury. Respir Care. 2006;51(8):853-68.
13. Galeiras Vázquez R, Rascado Sedes P, Mourelo Fariña M, Montoto Marqués A, Ferreiro Velasco ME. Respiratory management in the patient with spinal cord injury. Biomed Res Int. 2013;2013:168757.
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação individual. Responsável técnica: Lara Patrícia Bastos Rocha.



