O arroto que não veio do estômago (e o que a fisioterapia tem a ver com isso)

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Por Lara Rocha · RespiCare

Vamos começar com uma revelação: nem todo arroto nasce no estômago. Existe um tipo que é, digamos, um golpe de teatro. O ar entra no esôfago, dá meia-volta e sai, sem nunca ter passado pelo estômago. É a eructação supragástrica.

A literatura a descreve como um comportamento aprendido, muitas vezes ligado a refluxo que não responde ao inibidor de bomba de prótons (Liu et al., 2025). Ou seja, o corpo aprendeu um truque que ninguém pediu. A boa notícia é que o que se aprende também se desaprende, e o fisioterapeuta entende bem do assunto.

O que a ciência já sabe

A diretriz da AGA (Moshiree et al., 2023) coloca a respiração diafragmática entre as terapias para eructação supragástrica, ao lado de TCC e fonoterapia. Os autores avisam, com honestidade, que a evidência ainda é limitada.

O estudo mais citado é de Ong et al. (2017). Entre 36 pacientes com refluxo refratário e muito arroto, 60% dos que fizeram respiração diafragmática cortaram a eructação em pelo menos metade. No grupo em lista de espera, ninguém melhorou. O efeito ainda estava lá quatro meses depois. Vale lembrar que a amostra é pequena e não houve randomização.

Agora a parte divertida. Um ensaio randomizado de 2026 (Shang et al.) colocou 72 pacientes para disputar dois tratamentos: respiração diafragmática contra canto estruturado. O canto venceu, com 72% de resposta contra 39% após uma semana. Os autores explicam que muita gente acha o exercício respiratório monótono, e cantar é mais fácil de manter. Moral da história: o melhor tratamento é o que o paciente aceita fazer.

Também há fisiologia por trás. Halland et al. (2020) mostraram que a inspiração diafragmática aumenta a pressão do esfíncter esofágico inferior e reduz o refluxo depois das refeições. A exposição total ao ácido, porém, não mudou. A meta-análise de Abureesh et al. (2026) confirma melhora modesta dos sintomas de DRGE, com resultados bem heterogêneos entre os estudos.

E o treino muscular respiratório entra onde?

Um esclarecimento, porque a confusão é frequente. Respirar bem com o diafragma é técnica comportamental. Treinamento muscular respiratório (TMR) é treino com carga, feito com dispositivo resistivo. Para eructação, o que tem respaldo é a primeira. Não há evidência sólida de que o TMR com carga trate arroto.

O que o TMR faz muito bem é aumentar a força inspiratória (PImáx). As meta-análises mostram isso em DPOC (Huang et al., 2024), asma (Lista-Paz et al., 2022), AVC (Fabero-Garrido et al., 2021), doença isquêmica do coração (Fabero-Garrido et al., 2023) e doenças neuromusculares (Watson et al., 2022). Já os desfechos clínicos, como dispneia, função pulmonar e qualidade de vida, dependem da condição e nem sempre acompanham a força. Na apneia do sono, a certeza da evidência é baixa (Rocha et al., 2023).

Músculo mais forte é ótimo, mas não é sinônimo de paciente melhor

Para levar para a clínica
Arroto persistente merece investigação. Distinguir o supragástrico do gástrico muda a conduta.
Respiração diafragmática tem respaldo de diretriz, mas poucos ensaios randomizados sustentam.
Força não é desfecho clínico. O TMR rende mais dentro de um programa completo do que sozinho.
Adesão manda no resultado. Se cantar funciona, cante.

REFERÊNCIAS:

  1. Abureesh O. et al. Diaphragmatic breathing exercises for GERD: systematic review and meta-analysis. J Clin Med, 2026.
  2. Fabero-Garrido R. et al. RMT post-stroke: systematic review and meta-analysis. Ann Phys Rehabil Med, 2021.
  3. Fabero-Garrido R. et al. RMT in ischemic heart disease. Phys Ther, 2023.
  4. Halland M. et al. Diaphragmatic breathing in upright GERD: randomized controlled trial. Am J Gastroenterol, 2020.
  5. Huang Z. et al. RMT in stable COPD. Heliyon, 2024.
  6. Lista-Paz A. et al. RMT in asthma. Ann Phys Rehabil Med, 2022.
  7. Liu K. et al. Gastric and supragastric belching, aerophagia and rumination. Clin Gastroenterol Hepatol, 2025.
  8. Moshiree B. et al. AGA Clinical Practice Update on belching, bloating and distention. Gastroenterology, 2023.
  9. Ong A. et al. Diaphragmatic breathing reduces belching and PPI-refractory reflux symptoms. Clin Gastroenterol Hepatol, 2017.
  10. Rocha A. P. et al. RMT for obstructive sleep apnea. J Sleep Res, 2023.
  11. Shang H.-T. et al. Singing therapy vs diaphragmatic breathing for supragastric belching. Clin Gastroenterol Hepatol, 2026.
  12. Watson K. et al. RMT in neuromuscular disease. Eur Respir Rev, 2022


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