Quem trabalha com reabilitação pulmonar pediátrica sabe que, durante muito tempo, o treinamento muscular respiratório (TMR) foi visto quase como uma prática reservada ao adulto. Era comum encontrar fisioterapeutas e pneumologistas com receio de aplicar carga inspiratória em crianças, seja por falta de protocolos consolidados, seja pelo medo de eventos adversos. Esse cenário mudou bastante nos últimos anos. A produção científica explodiu, novos ensaios clínicos foram publicados em diferentes condições crônicas, e hoje já temos um conjunto de evidências consistente o suficiente para revisitar antigas crenças.
Neste post, organizamos as principais novidades sobre TMR pediátrico, com foco no que realmente faz diferença na prática clínica.
Por que o tema voltou ao centro da discussão
A ideia de que crianças com doenças respiratórias crônicas podem se beneficiar do fortalecimento dos músculos inspiratórios não é nova, mas ganhou tração depois que ensaios clínicos randomizados e meta‑análises começaram a mostrar ganhos clínicos relevantes. O TMR aparece atualmente como ferramenta complementar em asma, fibrose cística, doenças neuromusculares, obesidade, queimaduras torácicas e cardiopatias congênitas. Em quase todos esses cenários, as crianças apresentaram aumento de força muscular respiratória, e em muitos casos houve também impacto sobre função pulmonar, capacidade funcional e qualidade de vida.
Asma infantil: onde a evidência está mais sólida
A asma é, sem dúvida, a condição com o melhor corpo de evidências em pediatria. Duas meta‑análises recentes confirmaram que o treinamento inspiratório com carga (TMI) aumenta a pressão inspiratória e expiratória máximas (MIP/MEP), melhora VEF₁, CVF e relação VEF₁/CVF, além de elevar o escore de controle da asma (ACT). Os protocolos avaliados utilizaram dispositivos de limiar de pressão, sessões entre 20 e 35 minutos, cargas de 30 a 55% da MIP, mantidas por algumas semanas (Xiang et al., 2024; Wu et al., 2024).
Um achado interessante veio do trabalho de Gokcek e colaboradores (2023): após seis semanas de TMI, crianças com asma apresentaram redução de marcadores inflamatórios e de estresse oxidativo, incluindo periostina e TGF‑β. Isso aponta para um possível efeito anti-inflamatório auxiliar ao tratamento medicamentoso, hipótese que precisa ser explorada em estudos maiores, mas que abre uma frente promissora.
Fibrose cística: ganhos de força, mas sem milagre na espirometria
Em crianças e adolescentes com fibrose cística, a revisão sistemática de Cai e colaboradores (2024), que reuniu seis estudos, mostrou que o TMR pode aumentar força inspiratória e expiratória, e talvez também endurance, com perfil de segurança bastante favorável. Por outro lado, não houve melhora consistente em VEF₁, CVF ou capacidade de exercício. A qualidade da evidência ainda é considerada baixa, e isso precisa estar claro na conversa com a família: o ganho mais robusto está no fortalecimento muscular, e os efeitos sobre função pulmonar permanecem incertos.
Doenças neuromusculares: reforço da musculatura e melhora da tosse
Aqui o tema é particularmente sensível, porque envolve crianças com risco de insuficiência respiratória progressiva. Um ensaio randomizado conduzido por Human et al. (2024) aplicou TMI por três meses (30% da PImáx, 30 respirações duas vezes ao dia) e demonstrou aumento de força inspiratória e melhora do fluxo de tosse, sem efeitos adversos. Esse último ponto é clinicamente importante, já que tosse eficaz é um dos principais determinantes de prognóstico nessas crianças.
Estudos pré‑experimentais e revisões sistemáticas adicionais confirmam o perfil de segurança e a melhora de força inspiratória, com alguns relatos de ganho em coordenação de membros superiores. Mudanças claras em espirometria ou qualidade de vida ainda não foram demonstradas, e ensaios maiores seguem necessários (Human et al., 2017; Human & Morrow, 2021; Watson et al., 2022; Silva et al., 2019).
Outras populações pediátricas que vêm sendo estudadas
A literatura tem se ampliado para grupos antes pouco explorados:
● Queimaduras torácicas: oito semanas de TMI associado à reabilitação pulmonar melhoraram MIP, MEP, VEF₁, CVF, capacidade funcional e domínios físico e psicológico da qualidade de vida (Basha et al., 2024).
● Obesidade infantojuvenil: após oito semanas de TMI a 40% da MIP, observou‑se aumento de MIP e da distância no teste de caminhada de 6 minutos (Kaeotawee et al., 2022).
● Cardiopatia congênita pós‑Fontan: seis meses de TMI melhoraram a saturação de O₂ em repouso e impediram quedas abaixo de 90% no pico de exercício, ainda que sem ganho claro em VEF₁/CVF (Neidenbach et al., 2023).
● Doença pulmonar crônica e neuromuscular em programas domiciliares: elevação de MIP/MEP e, no grupo NMD, melhora também de PEF e fluxo de tosse (Rodríguez et al., 2014).
Como costumam ser os protocolos
Apesar da heterogeneidade, é possível desenhar um perfil aproximado dos protocolos pediátricos:
● Intensidade do TMI: 30 a 55% da MIP, podendo chegar a 80% em casos selecionados (Bhammar et al., 2022; Xiang et al., 2024; Wu et al., 2024; Woszezenki et al., 2017).
● Duração da sessão: 10 a 35 minutos, ou 30 respirações por sessão (Bhammar et al., 2022; Xiang et al., 2024; Human et al., 2024; Human & Morrow, 2021; Kaeotawee et al., 2022; Woszezenki et al., 2017).
● Frequência: geralmente duas vezes ao dia, em 5 a 7 dias por semana (Human et al., 2024; Human & Morrow, 2021; Kaeotawee et al., 2022; Woszezenki et al., 2017; Rodríguez et al., 2014).
● Período total: de 3 semanas a 6 meses, conforme a condição clínica (Human et al., 2024; Human & Morrow, 2021; Basha et al., 2024; Neidenbach et al., 2023; Woszezenki et al., 2017; Rodríguez et al., 2014).
Esses parâmetros funcionam como ponto de partida, e não como receita rígida. Cada protocolo precisa ser ajustado ao perfil da criança, à doença de base, à tolerância e à evolução clínica.
Por que o TMI funciona? Mecanismos propostos
O treinamento inspiratório aumenta força e endurance dos músculos inspiratórios, melhora a ventilação máxima voluntária, o desempenho em exercício e a percepção de dispneia, com efeitos descritos em diferentes condições pediátricas (Bhammar et al., 2022; Xiang et al., 2024; Chobisa et al., 2024).
Na asma, o benefício parece envolver redução de hiperinsuflação, melhora da mecânica respiratória e possivelmente alguma modulação inflamatória (Xiang et al., 2024; Wu et al., 2024; Gokcek et al., 2023). Já em doenças neuromusculares, o ganho de força e fluxo de tosse impacta diretamente a capacidade da criança de proteger a via aérea durante infecções respiratórias.
E a segurança?
Esse é, talvez, o ponto mais tranquilizador da literatura atual. Estudos pediátricos mostram boa adesão, alta segurança e ausência de eventos adversos graves em TMI de curto e médio prazo (Bhammar et al., 2022; Human et al., 2024; Human & Morrow, 2021; Basha et al., 2024; Kaeotawee et al., 2022). Quando bem prescrito, com supervisão adequada e progressão de carga sensata, o TMR é seguro em crianças.
O que ainda precisa ser respondido
Nem tudo está resolvido. Os principais pontos em aberto são:
● Há grande heterogeneidade entre estudos quanto ao tipo de treino (força versus endurance), intensidade, duração, inclusão ou não de treino expiratório e desfechos avaliados (Bhammar et al., 2022; Cai et al., 2024; Woszezenki et al., 2017; Van Kleef et al., 2024).
● Muitos estudos têm amostras pequenas, risco de viés e poucos avaliam desfechos centrados no paciente, como exacerbações, internações ou qualidade de vida a longo prazo (Bhammar et al., 2022; Cai et al., 2024; Human et al., 2017; Silva et al., 2019; Van Kleef et al., 2024).
● Não existe consenso sobre dose ótima, sobre a real necessidade de associar treino expiratório, nem sobre quais subgrupos de crianças mais se beneficiam (Bhammar et al., 2022; Cai et al., 2024; Wu et al., 2024; Van Kleef et al., 2024).
O que levar para a prática clínica
Para o profissional que atua com reabilitação pulmonar pediátrica, a mensagem das evidências recentes é razoavelmente clara:
- O TMR, e em particular o TMI com dispositivos de limiar de pressão, fortalece a musculatura respiratória de crianças com diferentes condições crônicas.
- Em asma, há ganhos consistentes de função pulmonar e controle clínico.
- Em fibrose cística e doenças neuromusculares, o efeito mais previsível é sobre força muscular e tosse, com menos certeza sobre função pulmonar e qualidade de vida.
- O perfil de segurança é favorável quando há prescrição individualizada e acompanhamento profissional.
- A escolha do protocolo deve considerar a condição clínica, a idade, o engajamento da criança e da família, e a estrutura disponível (consultório, domicílio, ambiente hospitalar).
O treinamento muscular respiratório, especialmente o TMI com carga, deixou de ser uma curiosidade clínica para se firmar como adjuvante promissor na reabilitação respiratória pediátrica. As evidências mais robustas estão hoje na asma, mas o leque de aplicações cresce ano a ano, alcançando crianças com fibrose cística, doenças neuromusculares, obesidade, queimaduras torácicas e cardiopatias congênitas. Ainda faltam ensaios maiores, padronização de protocolos e avaliação dos efeitos a longo prazo. Mesmo assim, para a equipe que atende crianças com doenças respiratórias crônicas, ignorar o TMR significa abrir mão de uma intervenção segura, de baixo custo e com potencial real de impacto clínico.
Na Respicare, acreditamos que tecnologia, ciência e prática clínica precisam caminhar juntas. Acompanhar de perto a literatura sobre TMR pediátrico é parte desse compromisso.
Referências:
Basha, M., Azab, A., Elnaggar, R., Aboelnour, N., Kamel, N., Aloraini, S., & Kamel, F. (2024). Inspiratory muscle training impact on respiratory muscle strength, pulmonary function, and quality of life in children with chest burn: A randomized controlled trial. Burns: journal of the International Society for Burn Injuries. https://doi.org/10.1016/j.burns.2024.05.007
Bhammar, D., Jones, H., & Lang, J. (2022). Inspiratory Muscle Rehabilitation Training in Pediatrics: What Is the Evidence? Canadian Respiratory Journal, 2022. https://doi.org/10.1155/2022/5680311
Cai, W., Li, M., Xu, Y., Li, M., Wang, J., Zuo, Y., & Cao, J. (2024). The effect of respiratory muscle training on children and adolescents with cystic fibrosis: a systematic review and meta-analysis. BMC Pediatrics, 24. https://doi.org/10.1186/s12887-024-04726-x
Chobisa, C., Lalwani, L., Vardhan, V., & Nathani, H. (2024). Effect of Respiratory Muscle Training on Improving Respiratory Muscle Strength in Younger Population: A Systematic Review. Journal of Clinical and Diagnostic Research. https://doi.org/10.7860/jcdr/2024/69640.19783
Gokcek, O., Yurdalan, U., Tuğay, B., El, Ç., & Doğan, S. (2023). Evaluation of the possible effect of inspiratory muscle training on inflammation markers and oxidative stress in childhood asthma. European Journal of Pediatrics, 182, 3713–3722. https://doi.org/10.1007/s00431-023-05047-4
Human, A., Corten, L., Lozano-Ray, E., & Morrow, B. (2024). Inspiratory muscle training in children with neuromuscular disorders. The South African Journal of Physiotherapy, 80. https://doi.org/10.4102/sajp.v80i1.2055
Human, A., Corten, L., Jelsma, J., & Morrow, B. (2017). Inspiratory muscle training for children and adolescents with neuromuscular diseases: A systematic review. Neuromuscular Disorders: NMD, 27(6), 503–517. https://doi.org/10.1016/j.nmd.2017.03.009
Human, A., & Morrow, B. (2021). Inspiratory muscle training in children and adolescents living with neuromuscular diseases: A pre-experimental study. The South African Journal of Physiotherapy, 77. https://doi.org/10.4102/sajp.v77i1.1577
Kaeotawee, P., Udomittipong, K., Nimmannit, A., Tovichien, P., Palamit, A., Charoensitisup, P., & Mahoran, K. (2022). Effect of Threshold Inspiratory Muscle Training on Functional Fitness and Respiratory Muscle Strength Compared to Incentive Spirometry in Children and Adolescents With Obesity: A Randomized Controlled Trial. Frontiers in Pediatrics, 10. https://doi.org/10.3389/fped.2022.942076
Neidenbach, R., Freilinger, S., Stöcker, F., Ewert, P., Nagdyman, N., Oberhoffer-Fritz, R., Pieper, L., Kaemmerer, H., & Hager, A. (2023). Clinical aspects and targeted inspiratory muscle training in children and adolescents with Fontan circulation: a randomized controlled trial. Cardiovascular Diagnosis and Therapy, 13, 11–24. https://doi.org/10.21037/cdt-22-308
Rodríguez, I., Zenteno, D., & Manterola, C. (2014). Efeitos do treinamento muscular respiratório domiciliar em crianças e adolescentes com doença pulmonar crônica. Jornal Brasileiro de Pneumologia, 40, 626–633. https://doi.org/10.1590/s1806-37132014000600006
Silva, I., Pedrosa, R., Azevedo, I., Forbes, A., Fregonezi, G., Júnior, M., Lima, S., & Ferreira, G. (2019). Respiratory muscle training in children and adults with neuromuscular disease. The Cochrane Database of Systematic Reviews, 9, CD011711. https://doi.org/10.1002/14651858.cd011711.pub2
Van Kleef, E., Poddighe, D., Pereira, M., Schuurbiers, M., Groothuis, J., Wijkstra, P., Voermans, N., Gosselink, R., Langer, D., & Doorduin, J. (2024). Future Directions for Respiratory Muscle Training in Neuromuscular Disorders: A Scoping Review. Respiration, 103, 601–621. https://doi.org/10.1159/000539726
Watson, K., Egerton, T., Sheers, N., Retica, S., McGaw, R., Clohessy, T., Webster, P., & Berlowitz, D. (2022). Respiratory muscle training in neuromuscular disease: a systematic review and meta-analysis. European Respiratory Review, 31. https://doi.org/10.1183/16000617.0065-2022
Woszezenki, C., Heinzmann-Filho, J., & Donadio, M. (2017). Inspiratory muscle training in pediatrics: main indications and technical characteristics of the protocols. Fisioterapia em Movimento, 30, 317–324. https://doi.org/10.1590/1980-5918.030.s01.ar01
Wu, P., Qian, X., Hu, Y., & Yan, X. (2024). Effectiveness of Threshold-Pressure Inspiratory Muscle Training on Pulmonary Rehabilitation in Children and Adolescents with Asthma. Journal of Asthma and Allergy, 17, 1073–1082. https://doi.org/10.2147/jaa.s479398
Xiang, Y., Luo, T., Chen, X., Zhang, H., & Zeng, L. (2024). Effect of inspiratory muscle training in children with asthma: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Frontiers in Pediatrics, 12. https://doi.org/10.3389/fped.2024.1367710



