Quando falamos em hemodiálise, muitas pessoas pensam apenas na máquina, no tempo de tratamento e nos cuidados com exames, alimentação e medicamentos. Mas existe uma parte muito importante desse cuidado que ainda é pouco lembrada: o exercício físico orientado.
Pacientes que fazem hemodiálise costumam conviver com cansaço, perda de força muscular, redução da capacidade de caminhar, alterações cardiovasculares, maior risco de internações e piora da qualidade de vida. Em muitos casos, atividades simples do dia a dia, como subir escadas, caminhar por alguns minutos ou levantar de uma cadeira, podem se tornar difíceis.
É nesse cenário que a fisioterapia cardiovascular ganha um papel fundamental.
Mais do que “fazer exercício”, a fisioterapia cardiovascular ajuda o paciente renal crônico a se movimentar com segurança, respeitando seus limites, sua pressão arterial, sua frequência cardíaca, sua condição clínica e o momento da hemodiálise.
E a ciência tem mostrado algo muito importante: programas de exercício para pacientes em hemodiálise são seguros, bem tolerados e trazem benefícios cardiovasculares, funcionais, metabólicos e emocionais [1–5].
Por que o paciente em hemodiálise perde tanta capacidade física?
A doença renal crônica não afeta apenas os rins. Ela impacta o corpo inteiro.
Com o tempo, o paciente pode apresentar:
● redução da força muscular;
● perda de massa muscular;
● maior sensação de fadiga;
● menor tolerância ao esforço;
● alterações na pressão arterial;
● comprometimento cardiovascular;
● piora da capacidade pulmonar e funcional;
● maior risco de depressão e isolamento social.
Além disso, as horas semanais dedicadas à hemodiálise acabam reduzindo o tempo ativo do paciente. Muitas vezes, ele passa longos períodos sentado ou deitado, o que favorece ainda mais a fraqueza muscular e o descondicionamento físico.
Por isso, manter o corpo em movimento não é apenas uma questão de bem-estar. Para muitos pacientes, é uma estratégia terapêutica.
O que é fisioterapia cardiovascular na hemodiálise?
A fisioterapia cardiovascular é uma área da fisioterapia voltada para melhorar a resposta do coração, dos pulmões, dos músculos e da circulação durante o esforço.
No paciente em hemodiálise, ela pode incluir:
● exercícios aeróbicos, como bicicleta adaptada;
● exercícios resistidos para braços e pernas;
● treino de força muscular;
● treino de equilíbrio;
● treino funcional;
● exercícios respiratórios;
● treinamento muscular inspiratório;
● orientações para atividade física domiciliar;
● monitorização de pressão arterial, frequência cardíaca, saturação e sintomas.
Esses exercícios podem ser feitos em diferentes momentos, inclusive durante a própria sessão de hemodiálise, modalidade conhecida como exercício intradiálise.
Exercício durante a hemodiálise: isso é possível?
Sim. E, quando bem indicado e monitorado, é seguro.
O exercício intradiálise normalmente é realizado nas primeiras horas da sessão, com acompanhamento profissional e controle dos sinais vitais. Uma das formas mais estudadas é o uso de bicicleta adaptada durante a hemodiálise, mas também podem ser feitos exercícios de resistência, mobilidade e fortalecimento.
Revisões sistemáticas e metanálises mostram que o exercício intradiálise é seguro, eficaz e capaz de melhorar capacidade funcional, sintomas depressivos, pressão arterial e qualidade de vida em pacientes em hemodiálise [3,7,9].
Isso não significa que todo paciente pode começar sozinho. A avaliação individual é indispensável. O programa precisa considerar o estado clínico, exames, presença de comorbidades, pressão arterial, sintomas, acesso vascular e tolerância ao esforço.
Benefícios para o coração
Pacientes em hemodiálise têm risco cardiovascular aumentado. Por isso, qualquer intervenção segura que ajude a proteger o coração merece atenção.
A literatura mostra que o exercício físico pode trazer efeitos cardiovasculares importantes nessa população [1,4].
Um ensaio clínico randomizado demonstrou que 6 meses de ciclismo intradiálise reduziu a massa ventricular esquerda em 11,1 g, além de reduzir marcadores relacionados à fibrose miocárdica e à rigidez aórtica [6]. Em termos simples, isso sugere que o exercício pode ajudar a reduzir sobrecargas estruturais importantes no coração.
Além disso, programas de exercício combinando treino aeróbico e resistido demonstraram melhora do VO₂ pico, que é uma medida da capacidade cardiorrespiratória. Uma metanálise em rede mostrou aumento de 3,94 ml/kg/min no VO₂ pico com treinamento combinado, além de melhora da tolerância ao exercício [2].
Outro ponto importante é a pressão arterial. O exercício intradiálise foi associado à redução da pressão arterial sistólica e diastólica, com diferença média de -4,87 mmHg na pressão sistólica e -4,11 mmHg na pressão diastólica [7]. O treinamento combinado também mostrou redução da pressão arterial diastólica após 12 semanas [2].
Essas mudanças podem parecer pequenas, mas em pacientes de alto risco cardiovascular, reduções consistentes de pressão e melhora da capacidade cardiorrespiratória são clinicamente relevantes.
Benefícios para força, mobilidade e independência
Um dos maiores impactos percebidos pelo paciente é funcional.
Muitos pacientes em hemodiálise relatam que antes conseguiam caminhar, sair de casa, fazer compras ou realizar tarefas simples, mas com o tempo passaram a se sentir mais fracos e dependentes.
O exercício ajuda justamente nesse ponto.
O treinamento muscular inspiratório, por exemplo, demonstrou melhora de aproximadamente 70,97 metros no teste de caminhada de 6 minutos [2]. Já estudos com exercício resistido intradiálise mostraram melhora da distância caminhada após 12 semanas de intervenção [8].
O treinamento resistido também se mostrou eficaz para aumentar força muscular e melhorar o componente de funcionamento físico do questionário SF-36, instrumento usado para avaliar qualidade de vida [2,5].
Na prática, isso significa que o paciente pode ganhar mais segurança para levantar, caminhar, subir pequenos degraus, realizar tarefas diárias e manter maior autonomia.
Benefícios musculares: combater a perda de massa e força
A perda de massa muscular é uma preocupação frequente na doença renal crônica. Ela pode estar relacionada à inflamação, alterações metabólicas, redução de atividade física, alimentação inadequada, idade e tempo em hemodiálise.
O exercício atua como um estímulo importante para preservar ou recuperar função muscular.
Estudos apontam que o treinamento físico pode ajudar a reduzir processos de degradação proteica, melhorar a função muscular, aumentar capilarização, estimular mitocôndrias e favorecer adaptações no músculo esquelético [4].
Em uma linguagem simples: o músculo precisa receber estímulo para continuar funcionando bem. Sem movimento, ele perde força. Com exercício orientado, ele pode recuperar parte da sua capacidade.
Benefícios metabólicos e na qualidade da diálise
Outro ponto interessante é que o exercício pode ajudar também na adequação dialítica.
A adequação da diálise é frequentemente avaliada por indicadores como o Kt/V, que ajuda a estimar se a diálise está removendo adequadamente as toxinas do organismo.
Estudos mostram que o treinamento aeróbico pode aumentar o Kt/V, e metanálises também confirmam melhora desse indicador em pacientes que realizam exercício [2,7].
Além disso, o exercício tem sido associado à redução de marcadores inflamatórios, como a proteína C-reativa, principalmente com treinamento resistido e aeróbico [2].
Também há evidências de melhora do estado nutricional e redução do risco de desnutrição em pacientes submetidos a exercícios intradiálise [8].
Ou seja, o exercício não melhora apenas “a disposição”. Ele pode influenciar positivamente o funcionamento global do organismo.
Benefícios emocionais e qualidade de vida
A hemodiálise muda a rotina, o corpo e a forma como o paciente se relaciona com sua própria saúde. É comum que surjam medo, tristeza, ansiedade, desânimo e sintomas depressivos.
Por isso, a qualidade de vida precisa ser parte central do tratamento.
Estudos mostram que o exercício intradiálise pode reduzir sintomas depressivos e melhorar a qualidade de vida em pacientes em hemodiálise [7,9].
Uma metanálise mostrou melhora significativa no componente físico do SF-36, com diferença média de 7,72 pontos [7]. Isso reforça que o exercício pode ajudar o paciente não apenas a viver mais, mas a viver melhor.
Para muitos pacientes, perceber que ainda conseguem se movimentar, evoluir e ganhar força tem um impacto emocional enorme. O exercício devolve confiança.
Qual tipo de exercício é melhor?
Não existe uma única resposta para todos os pacientes.
A literatura mostra benefícios com diferentes modalidades, incluindo exercício intradiálise e programas domiciliares. Até o momento, não há evidência clara de que uma modalidade seja sempre superior à outra [2].
O que parece fazer diferença é:
● avaliação individual;
● regularidade;
● progressão adequada;
● duração suficiente do programa;
● monitorização;
● combinação entre treino aeróbico e resistido;
● segurança clínica.
Intervenções com duração superior a 12 semanas tendem a apresentar melhores resultados funcionais do que programas muito curtos [2]. Além disso, exercícios de intensidade moderada a vigorosa, quando seguros e bem indicados, parecem promover ganhos mais pronunciados na capacidade funcional do que exercícios muito leves [2].
O treinamento combinado, com exercício aeróbico e resistido, apresentou bom desempenho para melhorar VO₂ pico e reduzir pressão arterial diastólica [2].
Exercício em hemodiálise é seguro?
Sim, desde que seja bem indicado, supervisionado e adaptado ao paciente.
Estudos mostram que programas de exercício em hemodiálise não aumentaram arritmias ventriculares nem eventos adversos significativos [6,7]. A American Heart Association também recomenda a promoção do exercício como parte do cuidado para melhorar a saúde cardiovascular e geral em pessoas com doença renal [1].
Mas segurança não significa ausência de cuidado.
Antes de iniciar, é importante avaliar:
● pressão arterial;
● presença de sintomas;
● doenças cardíacas associadas;
● anemia;
● fraqueza importante;
● risco de quedas;
● acesso vascular;
● nível de condicionamento;
● medicações;
● exames recentes;
● liberação e alinhamento com a equipe médica.
Cada paciente precisa de um plano próprio.
O papel da fisioterapia: transformar movimento em tratamento seguro
O paciente em hemodiálise não precisa ser tratado como alguém incapaz de se exercitar. Pelo contrário: na maioria das vezes, ele precisa de orientação adequada para voltar a se movimentar com segurança.
A fisioterapia cardiovascular ajuda a transformar exercício em tratamento.
Com avaliação, prescrição individualizada e monitorização, é possível trabalhar força, resistência, equilíbrio, respiração, mobilidade e tolerância ao esforço.
Mais do que melhorar números em exames, o objetivo é melhorar a vida real: caminhar melhor, cansar menos, ter mais disposição, preservar independência e recuperar confiança no próprio corpo.
Conclusão
A fisioterapia cardiovascular em pacientes em hemodiálise promove benefícios importantes para o coração, os músculos, o metabolismo, a funcionalidade e a qualidade de vida.
Programas de exercício, tanto intradiálise quanto domiciliares, são seguros, bem tolerados e eficazes quando realizados com avaliação e acompanhamento adequados [1–5,7].
Na RespiCare, acreditamos que movimento é parte essencial do cuidado. Para o paciente em hemodiálise, exercitar-se com segurança pode ser um passo importante para viver com mais força, autonomia e qualidade de vida.
Referências:
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