Treinamento Muscular Respiratório em Doenças Neuromusculares: o que dizem as evidências mais recentes

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As doenças neuromusculares (DNM) compõem um grupo heterogêneo de condições que compartilham um desfecho comum e crítico: o comprometimento progressivo da musculatura respiratória. Insuficiência ventilatória, tosse ineficaz e infecções respiratórias de repetição permanecem entre as principais causas de morbimortalidade nessas populações. Nesse cenário, o treinamento muscular respiratório (TMR) tem sido investigado há mais de três décadas como estratégia terapêutica complementar, e os últimos anos trouxeram um corpo de evidências cada vez mais consistente para fundamentar sua indicação na prática clínica.

Este artigo traz uma síntese atualizada do que a literatura científica mostra sobre o TMR em DNM, com foco em aplicabilidade clínica.

O racional fisiológico

Em condições como esclerose lateral amiotrófica (ELA), distrofia muscular de Duchenne (DMD), atrofia muscular espinhal (AME), miastenia gravis e esclerose múltipla (EM), o declínio da força dos músculos inspiratórios e expiratórios resulta em redução progressiva da capacidade vital, hipoventilação e prejuízo da tosse. A hipótese de que esses músculos, ainda que doentes, possam responder a um estímulo de sobrecarga controlada é o fundamento do TMR. Os protocolos mais estudados utilizam dispositivos de carga linear pressórica (threshold) ou de carga resistiva, com ajuste baseado em percentuais da pressão inspiratória máxima (PImáx) ou expiratória máxima (PEmáx).


O que mostram as revisões sistemáticas?

A revisão sistemática e metanálise mais abrangente publicada em 2025, no periódico BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, analisou 16 ensaios clínicos randomizados envolvendo 457 pacientes com diferentes DNM. Os resultados apontaram ganhos estatisticamente significativos em capacidade vital forçada (CVF), PImáx e PEmáx em comparação aos grupos controle. A revisão anterior, publicada pela European Respiratory Review em 2022, já sinalizava a mesma direção: melhora dos volumes pulmonares e da força muscular respiratória, com ressalva para a certeza da evidência, classificada de baixa a muito baixa em virtude de amostras pequenas, heterogeneidade de protocolos e risco de viés.

Em termos práticos, esses dados sustentam que o TMR é seguro e capaz de produzir benefícios mensuráveis, mas ainda carece de estudos multicêntricos de maior escala e com desfechos clinicamente duros, como hospitalizações e sobrevida.

Evidências por doença

Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA)

Uma metanálise específica publicada em 2025 avaliou a eficácia do TMR sobre função pulmonar e sobrevida em pacientes com ELA. Os achados indicam benefício modesto sobre a força muscular inspiratória e possível impacto na CVF em fases iniciais e intermediárias da doença, sem evidência robusta de modificação da progressão ou da sobrevida. A recomendação consensual é clara: o TMR deve ser encarado como intervenção adjuvante, nunca substituta da ventilação não invasiva (VNI), que permanece como a terapia com maior impacto prognóstico comprovado na ELA.


Distrofia Muscular de Duchenne (DMD)

Metanálises publicadas a partir de 2019 mostram melhora consistente da PImáx e da resistência muscular respiratória, sobretudo em pacientes em estágios precoces da doença, antes do declínio acentuado da CVF. Em fases avançadas, a resposta é menos previsível. A orientação atual é iniciar o treinamento enquanto a CVF ainda se encontra preservada (idealmente acima de 40–50% do previsto), período em que o músculo mantém capacidade de resposta ao estímulo de carga.

Atrofia Muscular Espinhal (AME)

A AME vive um momento de renovação do interesse clínico e científico, impulsionado pelas terapias moduladoras de SMN (nusinersena, risdiplam e onasemnogeno abeparvovec). Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 no Scientific Reports demonstrou que o TMR associado a exercícios de controle de tronco em crianças com AME resultou em ganhos significativos de força muscular respiratória e desfechos motores. Em paralelo, o estudo multicêntrico RESISTANT, cujo protocolo foi publicado no BMC Neurology, segue em andamento avaliando um programa domiciliar de TMR de quatro meses em pacientes com AME, incluindo aqueles sob terapia modificadora da doença. Os resultados deste trial são aguardados por sua capacidade de preencher uma lacuna relevante sobre a interação entre reabilitação respiratória e terapia gênica.


Miastenia Gravis e Esclerose Múltipla

Duas revisões sistemáticas publicadas em 2025 no Frontiers in Neurology abordaram o TMR na miastenia gravis e na EM. Em ambas as condições, a evidência aponta para ganhos em força muscular respiratória, redução da fadiga percebida e, em alguns estudos, melhora da qualidade de vida. Na miastenia, o TMR tem se mostrado seguro em pacientes estáveis, desde que se monitore sinais de fadiga e se evite o treinamento em períodos de exacerbação.

Como estruturar o treinamento na prática

Os protocolos descritos na literatura apresentam variações, mas convergem em alguns pontos. A maioria utiliza cargas entre 30% e 60% da PImáx, com frequência de cinco a sete dias por semana, por um período de seis a doze semanas. O treinamento é tipicamente domiciliar, com supervisão periódica presencial ou remota. Dispositivos de carga linear pressórica são preferidos por garantirem maior reprodutibilidade do estímulo.

O treinamento expiratório tem ganhado espaço nas publicações recentes, especialmente por seu papel na eficácia da tosse e no clearance de secreções, função crítica em pacientes com DNM avançada. Nesses casos, o TMR deve ser integrado a estratégias complementares, como air stacking, tosse assistida manual e tosse assistida mecanicamente por insuflação-exsuflação.

A seleção do paciente é um passo decisivo. Casos com CVF muito reduzida, comprometimento bulbar importante na ELA ou instabilidade clínica devem ser avaliados com cautela, pois podem apresentar resposta limitada ou fadiga excessiva. Uma avaliação respiratória completa — incluindo espirometria, medida de PImáx e PEmáx, pico de fluxo de tosse e, quando indicado, oximetria noturna e capnografia, é pré-requisito para a prescrição segura e individualizada.

Lacunas e perspectivas

Apesar do acúmulo de evidências, persistem lacunas que precisam ser endereçadas: padronização de protocolos, inclusão de desfechos clinicamente significativos (dispneia, infecções, hospitalizações, qualidade de vida), estudos de longo prazo e investigação sistemática da interação entre TMR e as novas terapias modificadoras de doença. Há um movimento claro na literatura internacional para integrar o TMR a programas estruturados de reabilitação pulmonar em DNM, dentro de uma lógica multidisciplinar e multimodal.

Conclusão

O treinamento muscular respiratório é hoje uma intervenção segura, factível e respaldada por evidência crescente de benefício em força muscular respiratória e parâmetros de função pulmonar em diversas doenças neuromusculares. Ainda que a certeza da evidência seja limitada em alguns desfechos, seu papel como componente adjuvante da reabilitação respiratória é cada vez mais consolidado, sempre associado a outros pilares do manejo, como a ventilação não invasiva, as técnicas de higiene brônquica e, quando indicadas, as terapias modificadoras de doença.

Para o profissional que atua na linha de frente do cuidado respiratório de pacientes com DNM, a mensagem é clara: incorporar o TMR de forma estruturada, individualizada e baseada em avaliação funcional rigorosa é uma estratégia legítima e respaldada pela ciência atual.

Referências Técnicas para Estudo:

1 – Silva IS, Pedrosa R, Azevedo IG, et al. The impact of respiratory muscle training on respiratory function in patients with neuromuscular disease: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2025. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s13102-025-01198-z

2 – Watson K, Egerton T, Sheers N, et al. Respiratory muscle training in neuromuscular disease: a systematic review and meta-analysis. European Respiratory Review. 2022;31(166):220065. Disponível em: https://publications.ersnet.org/content/errev/31/166/220065

3 – Efficacy of respiratory muscle training in improving pulmonary function and survival in patients with amyotrophic lateral sclerosis: a systematic review and meta-analysis. PMC. 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12149620/

4 – Inspiratory muscle training and trunk control exercises on respiratory strength and motor function in spinal muscular atrophy: randomized controlled trial. Scientific Reports. 2025. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-025-32566-x

5 – Bartels B, Habets LE, Stam M, et al. The RESISTANT study (Respiratory Muscle Training in Patients with Spinal Muscular Atrophy): study protocol for a randomized controlled trial. BMC Neurology. 2023. Disponível em: https://bmcneurol.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12883-023-03136-3

6 – Human HY, Lin HC, Tsai YJ. The Effect of Inspiratory Muscle Training on Duchenne Muscular Dystrophy: A Meta-analysis. PubMed. 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31568374/

7 – Effectiveness of respiratory muscle training in adults with multiple sclerosis: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Neurology. 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/neurology/articles/10.3389/fneur.2025.1665651/full

8 – Effects of respiratory muscle training on respiratory function and functional outcomes in patients with myasthenia gravis: a systematic review. Frontiers in Neurology. 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/neurology/articles/10.3389/fneur.2025.1667400/full

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