Cuidado, acolhimento e acesso à reabilitação para mulheres que enfrentam o câncer de mama. Acreditamos que cuidar vai além de tratar. É compreender histórias, respeitar necessidades e contribuir para que mais pessoas tenham acesso à assistência em saúde. Neste Outubro Rosa, a RespiCare apresenta o RespiCare Acolhe, uma iniciativa social que oferecerá gratuitamente duas bolsas integrais de reabilitação fisioterapêutica para mulheres diagnosticadas com câncer de mama que apresentam necessidade clínica e dificuldades de acesso ao tratamento. O programa reafirma nosso compromisso com uma assistência humanizada, ética e centrada na paciente. [QUERO ME INSCREVER] Inscrições de 19 a 26 de outubro de 2026 Sobre o Programa O RespiCare Acolhe foi criado para ampliar o acesso à reabilitação fisioterapêutica de mulheres em tratamento ou recuperação do câncer de mama. O programa contempla mulheres que possam se beneficiar do acompanhamento fisioterapêutico durante a preparação para cirurgia, recuperação pós-operatória, tratamento oncológico ou reabilitação funcional. A iniciativa possui caráter exclusivamente social e assistencial. Não envolve sorteios, promoções comerciais ou exigência de contratação de serviços. O que o programa oferece? Serão disponibilizadas 2 bolsas integrais, custeadas pela RespiCare. Cada bolsa poderá contemplar: O acompanhamento será planejado conforme as necessidades individuais, as condições clínicas e a segurança de cada participante. Quem pode participar? O programa é destinado a mulheres que atendam aos seguintes requisitos: Como funciona a seleção? O RespiCare Acolhe utiliza um processo de seleção transparente, com critérios previamente definidos. A candidata deverá preencher o formulário disponibilizado nesta página, fornecendo as informações necessárias para a análise inicial. Serão consideradas as dificuldades de acesso à reabilitação, a situação econômica e outras barreiras assistenciais relevantes. As candidatas pré-classificadas poderão ser convocadas para avaliação por fisioterapeutas, considerando suas necessidades funcionais, o momento do tratamento e a adequação ao programa. Uma comissão avaliará os critérios sociais e clínicos para classificação das participantes. Serão classificadas duas titulares e duas suplentes. A concessão definitiva da bolsa dependerá da confirmação da indicação e da segurança clínica na avaliação fisioterapêutica individual. Cronograma: Inscrições 19 a 26/10/2026Análise de elegibilidade: 27 e 28/10Triagens clínicas: 29 e 30/10Seleção e comunicação: 29 e 30/10Início das avaliações A partir de 03/11As datas poderão ser ajustadas por necessidade operacional, com comunicação às candidatas. Nosso compromisso com você A RespiCare valoriza a dignidade, a privacidade e a segurança de todas as participantes. A inscrição é totalmente gratuita e não exige compartilhamento em redes sociais, divulgação de histórias pessoais, autorização de imagem ou contratação de serviços. As informações fornecidas serão tratadas exclusivamente para as finalidades assistenciais e administrativas do programa, observando a legislação aplicável de proteção de dados pessoais. Participe do RespiCare Acolhe Toda mulher merece ser cuidada com respeito, atenção e dignidade.Se você atende aos critérios do programa, conheça o regulamento e realize sua inscrição. [QUERO ME INSCREVER] [CONSULTAR REGULAMENTO COMPLETO] O preenchimento do formulário não garante a concessão da bolsa. A seleção seguirá os critérios previstos no Regulamento Oficial do RespiCare Acolhe 2026. ⸻ Informações e Contato RespiCare — Fisioterapia PersonalizadaSCAS 613, Edifício Centro Médico, L2 Sul, Sala 201 — Brasília/DFWhatsApp: (61) 99837-3484Instagram: @respicare.brE-mail: respicare.df@gmail.com
O arroto que não veio do estômago (e o que a fisioterapia tem a ver com isso)
Por Lara Rocha · RespiCare Vamos começar com uma revelação: nem todo arroto nasce no estômago. Existe um tipo que é, digamos, um golpe de teatro. O ar entra no esôfago, dá meia-volta e sai, sem nunca ter passado pelo estômago. É a eructação supragástrica. A literatura a descreve como um comportamento aprendido, muitas vezes ligado a refluxo que não responde ao inibidor de bomba de prótons (Liu et al., 2025). Ou seja, o corpo aprendeu um truque que ninguém pediu. A boa notícia é que o que se aprende também se desaprende, e o fisioterapeuta entende bem do assunto. O que a ciência já sabe A diretriz da AGA (Moshiree et al., 2023) coloca a respiração diafragmática entre as terapias para eructação supragástrica, ao lado de TCC e fonoterapia. Os autores avisam, com honestidade, que a evidência ainda é limitada. O estudo mais citado é de Ong et al. (2017). Entre 36 pacientes com refluxo refratário e muito arroto, 60% dos que fizeram respiração diafragmática cortaram a eructação em pelo menos metade. No grupo em lista de espera, ninguém melhorou. O efeito ainda estava lá quatro meses depois. Vale lembrar que a amostra é pequena e não houve randomização. Agora a parte divertida. Um ensaio randomizado de 2026 (Shang et al.) colocou 72 pacientes para disputar dois tratamentos: respiração diafragmática contra canto estruturado. O canto venceu, com 72% de resposta contra 39% após uma semana. Os autores explicam que muita gente acha o exercício respiratório monótono, e cantar é mais fácil de manter. Moral da história: o melhor tratamento é o que o paciente aceita fazer. Também há fisiologia por trás. Halland et al. (2020) mostraram que a inspiração diafragmática aumenta a pressão do esfíncter esofágico inferior e reduz o refluxo depois das refeições. A exposição total ao ácido, porém, não mudou. A meta-análise de Abureesh et al. (2026) confirma melhora modesta dos sintomas de DRGE, com resultados bem heterogêneos entre os estudos. E o treino muscular respiratório entra onde? Um esclarecimento, porque a confusão é frequente. Respirar bem com o diafragma é técnica comportamental. Treinamento muscular respiratório (TMR) é treino com carga, feito com dispositivo resistivo. Para eructação, o que tem respaldo é a primeira. Não há evidência sólida de que o TMR com carga trate arroto. O que o TMR faz muito bem é aumentar a força inspiratória (PImáx). As meta-análises mostram isso em DPOC (Huang et al., 2024), asma (Lista-Paz et al., 2022), AVC (Fabero-Garrido et al., 2021), doença isquêmica do coração (Fabero-Garrido et al., 2023) e doenças neuromusculares (Watson et al., 2022). Já os desfechos clínicos, como dispneia, função pulmonar e qualidade de vida, dependem da condição e nem sempre acompanham a força. Na apneia do sono, a certeza da evidência é baixa (Rocha et al., 2023). Músculo mais forte é ótimo, mas não é sinônimo de paciente melhor Para levar para a clínicaArroto persistente merece investigação. Distinguir o supragástrico do gástrico muda a conduta.Respiração diafragmática tem respaldo de diretriz, mas poucos ensaios randomizados sustentam.Força não é desfecho clínico. O TMR rende mais dentro de um programa completo do que sozinho.Adesão manda no resultado. Se cantar funciona, cante. REFERÊNCIAS:
Dia Mundial do Pulmão – 25/09
Você respira mais de 20 mil vezes por dia. O que vai junto? Por Lara Rocha · RespiCare Hoje é Dia Mundial do Pulmão. Antes de falar de ciência, uma notícia boa. Agosto Branco: missão cumprida 💙 A Caminhada do Agosto Branco esgotou todos os kits. Arrecadamos R$ 2.400, que viraram 50 cestas. Elas estão sendo entregues hoje à Rede Feminina de Combate ao Câncer. Obrigado a cada pessoa que caminhou com a gente. Agosto foi sobre o câncer de pulmão, e setembro fecha o ciclo com uma pergunta simples: o que você está colocando aí dentro? O câncer de pulmão voltou a crescer A estimativa do INCA para 2026–2028 prevê 35 mil casos de câncer de pulmão por ano no Brasil. O próprio instituto chamou atenção para a retomada do crescimento desse tumor. Depois de décadas caindo junto com o tabagismo, a curva voltou a subir. O cigarro não sumiu, ele só mudou de formato. O cigarro trocou de roupa Segundo o Vigitel, 10,1% dos jovens de 18 a 24 anos usam cigarro eletrônico, e 24,8% já experimentaram. Detalhe: isso tudo acontece com o produto proibido. Em abril de 2024, a Anvisa revisou a regulação do cigarro eletrônico e manteve a proibição. “Mas é só vapor” Não é. O que sai do vape é um aerossol, uma nuvem de partículas ultrafinas que carrega: • nicotina (em alguns descartáveis, em quantidade maior que a de um maço);• solventes aquecidos (propilenoglicol e glicerina);• aromatizantes feitos para comer, não para inalar;• metais que se soltam da resistência. O relatório do Surgeon General dos EUA de 2016 já concluía que esse aerossol não é inofensivo. A Sociedade Brasileira de Cardiologia, em 2024, lembrou que o aquecimento de solventes e aditivos pode gerar componentes tóxicos, muitos com efeitos ainda desconhecidos. O exemplo mais claro é o EVALI, a lesão pulmonar associada ao vape. Entre 2019 e 2020, os EUA registraram mais de 2.800 hospitalizações e 68 mortes. A investigação encontrou acetato de vitamina E no pulmão da maioria dos pacientes (Blount et al., NEJM, 2020). No Brasil, onde todo vape vem do mercado ilegal, ninguém sabe exatamente o que tem no refil. E o vape como “ferramenta para parar de fumar”? A SBC aponta que jovens que usam cigarro eletrônico têm menor chance de largar o cigarro, e que muitos adultos acabam usando os dois ao mesmo tempo. Quem não fuma também respira Fumaça: não existe nível seguro de exposição passiva (Surgeon General, 2006). A OMS estima que cerca de 1,3 milhão de pessoas morrem por ano sem nunca ter fumado, só por respirar a fumaça dos outros. Vape: a evidência é mais recente, mas vai na mesma direção. Um estudo com jovens adultos na Califórnia (Islam et al., Thorax, 2022) encontrou mais sintomas de bronquite e falta de ar em quem era exposto ao vape de outras pessoas dentro de casa. Aquele “cheirinho de melancia” no carro com as crianças também entra na conta. A parte boa: o pulmão responde Parar funciona em qualquer idade. Os benefícios começam em semanas e se acumulam por anos (Surgeon General, 2020). Se o fôlego já não é o mesmo, a reabilitação pulmonar tem uma das evidências mais sólidas da área: melhora falta de ar, capacidade de exercício e qualidade de vida (Spruit et al., ATS/ERS, 2013). Neste Dia do Pulmão • Fuma ou usa vape? Converse com seu médico. O SUS oferece tratamento gratuito para parar.• Convive com quem fuma? Proteja seus espaços, principalmente casa e carro.• Sente falta de ar, tosse que não passa ou cansaço aos esforços? Venha fazer uma avaliação. . REFERÊNCIAS:
Cannabis, Tabaco e M&M’s: a Esquina Mais Sincera de Nova York
Uma crônica sobre fumaça, marketing e a criança que só queria um chocolate. Por Lara Rocha · RespiCare Bem-vindo a Nova York, onde a esquina decide seu vício por vocêExiste uma esquina em Nova York, vou fingir que não sei exatamente qual, mas todo mundo que já passou por Times Square já cruzou com ela, onde a vida oferece duas portas. De um lado, um dispensário de cannabis licenciado, telão de LED gritando “FLOWER · VAPES · EDIBLES” como se fosse vitrine de doceria. Do outro, a doceria de verdade: a M&M’s World, torres de bonecos coloridos, criança de nariz colado no vidro pedindo o pacote gigante do M&M’s amarelo. Uma criança escolhe entre chocolate verde e chocolate vermelho. A dez metros dali um adulto escolhe entre “flower” e “vape“. A cidade que nunca dorme decidiu, com a delicadeza de um telão de LED, que fumar hoje é só mais uma opção de compra por impulso, bem ao lado do caramelo. Que belo cenário para falar de pulmão, não é mesmo? Capítulo 1 — O tabaco, esse “coitado” que ainda mata 342 pessoas por dia nos EUA Vamos aos números, porque aqui a gente gosta de fonte confiável, não de achismo de balcão. Nos EUA, o tabagismo caiu de 42% dos adultos em 1965 para apenas 9,9% em 2024, a menor taxa já registrada na história do país. Décadas de campanha, imposto e Surgeon General finalmente deram resultado. No mundo, ainda são 1,2 bilhão de pessoas fumando tabaco, 1 em cada 5 adultos. E o câncer de pulmão? Só nos EUA, a projeção para 2025 é de 124.730 mortes, das quais 85% causadas diretamente pelo cigarro. Isso equivale a 342 pessoas por dia. Todos os dias. Tudo isso enquanto o Brasil resolveu remar na direção contrária: pela primeira vez desde 2006, a prevalência de fumantes subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, alta de 25% em um único ano. Entre as mulheres, o salto foi de 7,2% para 9,8%. Enquanto os americanos comemoram o “recorde histórico de baixa”, nós comemoramos… o quê, mesmo? Capítulo 2 — Do outro lado da rua, a novidade: cannabis, legal e sorridente Agora, a parte que o painel neon faz questão de deixar clara: cannabis recreativa é legal em Nova York desde 2021, com vendas no varejo desde 20237,8. No total, 24 a 25 estados americanos já liberaram o uso recreativo, e mais de 70% da população dos EUA vive onde a cannabis é legal de alguma forma. O dispensário na esquina não é exceção… é a regra. E o consumo acompanha: em 2024, 64,2 milhões de americanos usaram cannabis no último ano, e 15,4% da população com 12 anos ou mais era usuária no último mês11. Entre jovens adultos de 18 a 25 anos, esse número sobe para quase 1 em cada 4. Só que aqui vem o detalhe que o letreiro verde não anuncia: fumar cannabis também inflama a árvore brônquica, provoca sintomas de bronquite crônica, compromete a função dos macrófagos alveolares, as “faxineiras” do pulmão, e aumenta o risco de infecções respiratórias. A relação direta com câncer de pulmão ainda é debatida na literatura, mas nenhum estudo sério chama isso de “seguro”. Ou seja: trocar tabaco por cannabis não é trocar fumaça por vento fresco. É trocar um vilão com currículo extenso por outro que ainda está construindo o dele. Capítulo 3 — A criança do outro lado da rua E aqui está a piada mais sombria da esquina: a criança comprando M&M’s não vê o dispensário como perigo, vê como parte da paisagem. Uma loja colorida ao lado de outra loja colorida. Vape sabor morango ao lado de M&M’s sabor morango. A publicidade de ambos fala a mesma língua: cores vivas, sabor, diversão, “edição limitada”. Só um dos dois produtos deixa marca nos brônquios que ainda vão crescer. Não se trata de demonizar quem fuma tabaco ou cannabis, isso já foi tentado e não funcionou. Trata-se de notar que a normalização visual do consumo, seja de nicotina ou de erva, está acontecendo na mesma velocidade e com a mesma estética de uma doceria. E que, enquanto os adultos discutem política de drogas, é a criança de nariz no vidro quem cresce respirando essa paisagem. Capítulo 4 — O que isso tem a ver com fisioterapia respiratória? Tudo. Porque, tabaco ou cannabis, quem paga a conta no fim é o mesmo órgão: o pulmão. É ele que chega para reabilitação pulmonar, é ele que perde capacidade na espirometria, é ele que sofre com bronquite crônica anos depois de qualquer letreiro de LED ter apagado. A ciência não escolhe lado da rua, só mede o dano. Da próxima vez que passar por uma esquina dessas em Nova York, em Brasília, onde for… repare: os dois lados vendem experiência. Só um deles avisa a bula. REFERÊNCIAS: 1. Public Health Alerts (NEJM Evidence / CIDRAP). Tobacco use among US adults, 2023–2024. 2026. 2. National Center for Health Statistics. Cigarette and Electronic Cigarette Use Among Adults by Urbanization Level: United States, 2024. Hyattsville, MD: CDC/NCHS; 2026. 3. World Health Organization. WHO global report on trends in prevalence of tobacco use 2000–2024 and projections 2025–2030. Geneva: WHO; 2025. 4. Siegel RL, Kratzer TB, Giaquinto AN, Sung H, Jemal A. Cancer statistics, 2025. CA Cancer J Clin. 2025;75:10-45. 5. Islami F, Nargis N, Liu Q, et al. Averted lung cancer deaths due to reductions in cigarette smoking in the United States, 1970–2022. CA Cancer J Clin. 2025;75(3):216-225. 6. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2024: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. 7. New York State. Marihuana Regulation and Taxation Act (MRTA). Albany: New York State Senate; 2021. 8. New York State Cannabis Control Board / Office of Cannabis Management. Adult-use dispensary licensing status. 2026. 9. USA Symbol. Marijuana Laws by State 2026: Map & Legal Status. 2026. 10. Visual Capitalist. Mapped: The U.S. Is
Ciência com filtro: como a desinformação sobre tabaco aprendeu a citar referência
Ninguém mais te manda uma fake news escrachada. Me mandam um print do PubMed. Um guia de bolso para não cair e para não virar aquela pessoa que desconfia de tudo. Por Lara Rocha · RespiCare A frase mudou. Antes era “minha tia falou”. Depois virou “vi num grupo”. Agora é: “achei um estudo”.E olha, é um progresso. Sério. As pessoas passaram a querer fonte, o que é ótimo. O problema é que a desinformação percebeu isso antes da gente e se adaptou. Ela fez pós-graduação. Hoje ela vem com DOI, com referência numerada, com aquele azulzinho da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos no cabeçalho do print.Ou seja: agora você não precisa mais detectar mentira. Precisa detectar verdade mal-usada. Que é bem mais difícil, e bem mais chato.Então vamos ao guia. Cinco truques, sem jargão, e no fim um teste de trinta segundos que você pode usar no meio do rolê. Truque 1: parecer sério já é meio caminho A maior parte do trabalho de convencimento é feita antes de qualquer argumento, é feita pela cara do print.Só que o PubMed é uma estante. Uma estante gigante, organizadíssima, mantida por gente séria, mas uma estante. Ele guarda e cataloga; ele não lê e não aprova. Um artigo estar no PubMed diz onde ele foi publicado. Não diz se ele presta.É a diferença entre um livro estar na biblioteca e o livro ser bom. Tem best-seller de autoajuda duvidosa na biblioteca também.E revista científica tem tanta variação de qualidade quanto restaurante. Existe a que revisa o artigo por seis meses e existe a que publica em duas semanas mediante pagamento. As duas aparecem exatamente iguais no print. Truque 2: “comparado com o quê?” Esse é o meu favorito, porque é o mais simples e o mais eficaz.Quase todo estudo que conclui que um produto de nicotina é “melhor” está comparando esse produto com continuar fumando cigarro. E aí, claro que ganha. Comparado com inalar fumaça de combustão, quase tudo ganha.É como dizer que cair do primeiro andar é mais seguro do que cair do quinto. É verdade. Só que a conversa toda parte do princípio de que você já está caindo.Se você nunca fumou, esse comparador não tem nada a ver com a sua vida. A comparação que interessa para você é com não usar nada. E essa quase nunca aparece. Truque 3: mediram uma coisa, falaram de outra Boa parte dos estudos que viralizam mediu marcador de inflamação no sangue, função do endotélio, essas coisas. São medidas legítimas e úteis. Mas são pistas, não desfechos.Menos inflamação no exame é diferente de menos gente infartando. E a gente já viu esse filme, com os mesmos atores: nos anos 1970, a máquina media menos alcatrão no cigarro “light”, o número era real, o folheto era honesto sobre o número, e o infarto veio do mesmo jeito. O marcador melhorou. As pessoas não.Sempre que alguém falar “reduz o risco”, vale perguntar: risco medido em exame ou risco medido em gente? Truque 4: a margem de erro que some no resumo Todo resultado vem com uma margem de erro. E às vezes ela é do tamanho de um estádio.Você lê “redução de 40% no risco de infarto” e pensa: fechou. Aí vai no número original e a margem vai de “reduz quase 90%” até “triplica”. O mesmo dado sustenta as duas manchetes.É você perguntar o preço de uma coisa e o vendedor responder: entre cinco reais e mil e duzentos. Tecnicamente ele respondeu. Só que você não sabe nada.Resultado que serve para tudo não serve para nada. E ele nunca aparece no card do Instagram. Truque 5: quem pagou a conta Esse é o último da lista de propósito, porque é o mais fácil de checar e o mais fácil de usar errado.Toda revista séria obriga o autor a declarar quem financiou o trabalho e que relações comerciais ele tem. Essa informação fica sempre no mesmo lugar: lá no fim, depois da conclusão, antes das referências. É o porão do artigo. E é onde mora, com frequência impressionante, o nome de uma fabricante.Aqui vale a regra do bom senso: financiamento da indústria não invalida um estudo automaticamente. Ciência financiada por empresa pode ser boa. O que o financiamento faz é mudar o nível de exigência com o resto, principalmente quando o desenho do estudo é do tipo que permite escolher quais evidências entram e quais ficam de fora.Quando as duas coisas aparecem juntas, dinheiro do fabricante e um desenho frouxo o bastante para acomodar qualquer conclusão, aí não é mais coincidência. É engenharia. E o influenciador? Ele está mentindo? Na maioria das vezes, não. E isso é importante dizer.Boa parte das pessoas que compartilham esse tipo de conteúdo leu o resumo, achou que estava fazendo um favor ao público e postou de boa-fé. O resumo de um artigo é escrito pelos próprios autores, é a parte mais otimista do texto inteiro e é a única parte que a maioria das pessoas lê. Cair nele não é burrice, é falta de manual.Existe também quem receba para postar, e nesse caso a regra é a mesma que vale para o artigo: procure a divulgação de publicidade. Se não tem, desconfie do mesmo jeito que você desconfiaria de um estudo sem declaração de conflito de interesse.Mas o alvo aqui não é o rapaz do vídeo. É a estrutura que produz o estudo, financia o congresso, paga a assessoria de imprensa e entrega o material mastigado para que ele apenas leia em voz alta. Ele é o último elo, e o mais barato de substituir. O TESTE DOS 30 SEGUNDOS Antes de acreditar (ou de brigar nos comentários), quatro perguntas: ● Quem pagou? Rola até o fim do artigo, na parte de conflito de interesse. É onde a resposta costuma estar.● Comparado com o quê? Se o comparador for “continuar fazendo a coisa pior”, quase tudo ganha.● Mediram o quê? Exame de sangue e marcador de inflamação são pistas. Infarto e morte são desfechos. Não
Voltei da Inglaterra com três fotos no celular…
Eu não estava trabalhando. Estava de férias, de verdade, daquelas com café ruim de aeroporto e mala mal fechada. Mas quem trabalha com pulmão não desliga o olho. A primeira foto é uma placa em Portsmouth, parafusada num muro de tijolo: proibido fumar e vapear naquele prédio. Bonitinha, discreta, elegante. A segunda foi tirada do outro lado da rua, quase no mesmo quarteirão: uma loja de conveniência com três palavras na fachada, nessa ordem, VAPES, DRINKS, SNACKS. O vape vem antes da bebida e da comida. Não é detalhe de design. É hierarquia comercial. A terceira foi em Londres. Uma esquina inteira envelopada em preto, com o nome de uma marca de vape onde deveria estar o nome da loja. Do lado, um pôster de colaboração com uma equipe de Fórmula 1, edição limitada, sabor de mamão apimentado. Mamão apimentado. Fórmula 1. Numa esquina onde criança passa indo para a escola. E o que mais me marcou não foram as lojas. Foi quem estava usando. Adolescente na fila do ônibus. Homem de terno esperando o metrô. Senhora de 70 e poucos com sacola de compras. E, num parque, um rapaz em cadeira de rodas, com um padrão respiratório que eu reconheceria de olhos fechados, lesão medular alta, dando uma tragada num pod colorido. Aquela imagem me acompanhou o resto da viagem. Volto nela no fim do texto. O tamanho real da coisa O Reino Unido não é caso isolado, é só o lugar onde eu estava. A OMS estima mais de 100 milhões de usuários de cigarro eletrônico no mundo, sendo cerca de 86 milhões de adultos e 15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos. Na Grã-Bretanha, os dados de 2026 da ASH mostram 10% dos adultos vapeando, algo perto de 5,5 milhões de pessoas. Interessante: 11% ainda fumam cigarro comum. Ou seja, as duas coisas convivem, uma não substituiu a outra. E no Brasil? Aqui a gente tem um detalhe curioso: é proibido vender, mas 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos usaram vape no último ano. Cinco vezes mais do que o cigarro tradicional na mesma faixa (1,7%). O dado é do LENAD III, da Unifesp, que ouviu mais de 16 mil brasileiros em 349 municípios. O número que me tira o sono é outro, do mesmo levantamento: entre os adolescentes que experimentaram, 76,3% passaram a usar de forma regular. Experimentar cigarro comum e achar horrível é quase um rito de passagem. Todo mundo conhece alguém que tossiu, passou mal e nunca mais. O vape não te dá essa chance de escapar. Ele é doce, é frio, não arde, e o sal de nicotina entrega concentrações que o cigarro convencional nem sonha. Comparação legal, aqui do Brasil: o cigarro tradicional é limitado a 1 mg de nicotina por unidade. Os líquidos de vape chegam a 57 mg por mililitro. Não existe “só experimentei”. Existe “ainda não percebi”. O que os estudos mostram Vou direto, sem rodeio, porque essa parte importa. Pulmão. Uma revisão integrativa publicada no European Respiratory Journal juntou estudos epidemiológicos e de laboratório e encontrou associação entre uso de cigarro eletrônico e asma (OR ajustado 1,39) e DPOC (OR ajustado 1,49), já controlando para tabagismo convencional. Uma revisão sistemática mais recente, de 2025, mostrou que quem usa os dois (vape + cigarro) tem risco bem maior de sintomas respiratórios e de DPOC comparado a quem nunca usou nada. Coração e vasos. Um estudo do grupo da Universidade da Califórnia mediu dilatação mediada por fluxo, o teste que mostra se o endotélio, o revestimento interno dos seus vasos, ainda funciona direito. Usuários crônicos de cigarro eletrônico tiveram prejuízo comparável ao de fumantes crônicos. Não “um pouquinho menos ruim”. Comparável. A porta de entrada. Duas metanálises separadas chegaram a números parecidos: adolescentes que usam vape têm de 3 a 4 vezes mais chance de começar a fumar cigarro comum depois. Vale a honestidade científica aqui — os próprios autores de uma delas apontam que os estudos têm ajuste incompleto de fatores de confusão. Quem vapeia aos 14 talvez já fosse um adolescente com maior propensão a fumar. Não é uma relação de causa provada em laboratório. Mas é um sinal consistente que aparece em país após país, e política pública não espera prova perfeita para proteger criança. A parte inconveniente que a gente também precisa dizer Se eu só te contasse o que está acima, eu estaria fazendo campanha, não informação. A revisão Cochrane de 2025 sobre cigarro eletrônico para cessação do tabagismo reuniu 104 estudos e mais de 30 mil participantes. Conclusão com alta certeza de evidência: cigarro eletrônico com nicotina ajuda mais gente a parar de fumar do que adesivo e goma de nicotina. Cerca de 3 a 4 pessoas a mais param, a cada 100 que tentam. Isso é real e eu não vou fingir que não é. Mas repare no desenho do estudo: adulto, já fumante, dentro de programa de cessação, usando produto regulado, com acompanhamento. Isso não é o menino de 15 anos comprando pod de melancia gelada no Instagram porque o amigo tem um. São duas conversas completamente diferentes que o marketing adora misturar. Quem já fuma há 20 anos e troca cigarro por vape provavelmente reduz dano. Quem nunca fumou e começa no vape não reduziu nada. Adicionou. O Reino Unido proibiu os descartáveis. Deu certo? Deu, mais ou menos, e o “mais ou menos” é a parte interessante. Desde 1º de junho de 2025, é ilegal vender vape descartável no Reino Unido. O argumento principal foi ambiental (estimava-se 5 milhões de descartáveis jogados fora por semana, cada um com bateria de lítio dentro), mas o uso por adolescentes pesou bastante. Um ano depois, entre jovens de 11 a 17 anos que vapeiam, a fatia que usa principalmente descartáveis caiu de 42% para 13%. Entre adultos, de 24% para 8%. Só que o mercado não sumiu, migrou. Os pods recarregáveis explodiram em popularidade, oferecendo praticamente a mesma experiência. E os conselhos municipais britânicos apreenderam mais de 1,3
A inteligência artificial vai virar fisioterapeuta? Calma, não é bem assim!
Entenda como a IA está entrando na reabilitação cardiopulmonar e por que o fisioterapeuta continua sendo insubstituível. Imagine chegar para a fisioterapia e encontrar um robô de jaleco segurando um oxímetro, um Powerbreathe e uma prancheta. Pode ficar tranquilo. Pelo menos, por enquanto, não é disso que estamos falando. A inteligência artificial, ou simplesmente IA, está começando a ocupar um espaço importante na reabilitação cardiopulmonar. Mas sua função não é substituir o fisioterapeuta, dar bronca quando você falta ao treino ou decidir sozinha que hoje é dia de aumentar a carga. Na prática, ela funciona mais como uma espécie de copiloto digital: organiza informações, acompanha sinais fisiológicos, identifica padrões, ajuda a personalizar exercícios e pode avisar quando alguma coisa parece estar saindo do esperado. A literatura científica mostra que a combinação entre telereabilitação, monitoramento remoto e acompanhamento profissional pode tornar o tratamento mais acessível, contínuo e individualizado.[1,2] Primeiro, o que a IA realmente faz na reabilitação? Quando falamos em inteligência artificial na saúde, estamos reunindo várias tecnologias diferentes. Isso pode incluir programas que analisam a execução de um exercício pela câmera do celular, algoritmos que interpretam dados de relógios inteligentes, sistemas que ajustam a progressão do treinamento e modelos que tentam prever quais pacientes apresentam maior risco de abandonar o tratamento ou sofrer uma piora clínica. Ou seja, a IA não “pensa” sobre o paciente da mesma forma que um profissional. Ela procura padrões em grandes quantidades de dados. É como aquele amigo extremamente observador que percebe que você sempre falta à fisioterapia quando chove. A diferença é que o algoritmo consegue analisar frequência cardíaca, pressão arterial, oxigenação, passos, qualidade dos exercícios, sintomas e adesão praticamente ao mesmo tempo. E nos pacientes com doenças pulmonares? Aqui começam a aparecer resultados bastante interessantes. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 avaliou três ensaios clínicos randomizados, totalizando 456 participantes. Os programas de reabilitação pulmonar assistidos por IA proporcionaram uma melhora média de 22,08 metros no teste de caminhada de seis minutos, quando comparados ao cuidado habitual.[3] Para quem olha de fora, 22 metros podem parecer apenas o caminho entre o sofá e a cozinha depois de esquecer o celular. Mas, na reabilitação pulmonar, o teste de caminhada ajuda a avaliar a capacidade funcional, a tolerância ao esforço e a resposta ao tratamento. O resultado é promissor, embora ainda precise ser interpretado com cautela. Foram poucos estudos, houve diferenças entre os programas analisados e ainda faltam pesquisas maiores, com protocolos mais padronizados e acompanhamento de longo prazo.[3] Na doença pulmonar obstrutiva crônica, a famosa DPOC, uma revisão de 40 estudos identificou aplicações da IA em diferentes etapas do cuidado: diagnóstico, monitoramento, tratamento, previsão de exacerbações e reabilitação.[4] Segundo essa revisão, algumas plataformas domiciliares aumentaram a adesão à reabilitação em mais de 30%, sem exigir equipamentos adicionais. Modelos que combinavam informações de sensores, imagens e outros dados clínicos também apresentaram desempenho encorajador na previsão de exacerbações.[4] Mas atenção: isso não significa que o celular ganhou poderes de vidente. Esses algoritmos podem identificar mudanças sutis antes que o paciente perceba uma piora evidente, porém muitos ainda precisam ser testados em diferentes hospitais, países e populações. Um modelo excelente em determinado grupo pode não funcionar da mesma maneira em outro. Reabilitação pulmonar em casa funciona? Em muitos casos, sim. Uma meta-análise de 2026 reuniu 17 ensaios clínicos que compararam a telereabilitação pulmonar com programas realizados presencialmente em centros especializados.[5] Os resultados indicaram que a modalidade remota pode alcançar, no curto prazo, resultados clínicos semelhantes aos da reabilitação presencial, especialmente quando existe supervisão profissional, acompanhamento estruturado e suporte tecnológico adequado.[5] Por outro lado, os benefícios nem sempre se mantiveram da mesma forma no acompanhamento de longo prazo. Além disso, os autores destacaram que pacientes mais complexos, instáveis ou com necessidade de supervisão próxima continuam se beneficiando do atendimento presencial. A conclusão é bastante sensata: não existe uma disputa entre “online” e “presencial”. Existe a necessidade de escolher o modelo mais seguro e adequado para cada pessoa. E o coração, entra nessa conversa? Entra e com direito a relógio inteligente, sensores e muitos dados. Na reabilitação cardíaca, está ganhando força o conceito de reabilitação de precisão. A proposta é combinar dados clínicos, exames de imagem, respostas fisiológicas, informações genéticas e outros marcadores para compreender melhor as características de cada paciente e individualizar a prescrição dos exercícios.[6] Em vez de oferecer exatamente o mesmo programa para pessoas com histórias, limitações e respostas diferentes, a IA poderia ajudar a responder perguntas mais específicas:● Quem precisa de progressão mais lenta?● Quem está apresentando melhora menor que a esperada?● Quem corre maior risco de abandonar o programa?● Quem precisa de mais contato e incentivo da equipe?● Quais variáveis estão limitando a capacidade funcional? É uma ideia fascinante. Mas os próprios pesquisadores reconhecem que a chamada reabilitação cardíaca de precisão ainda está em desenvolvimento. A utilidade clínica de dados genômicos, proteômicos e metabólicos, por exemplo, ainda não está estabelecida para a rotina dos programas de reabilitação.[6] O relógio inteligente pode acompanhar minha evolução? Pode ajudar, mas ainda não aposente o teste de caminhada. Um estudo acompanhou 129 pacientes durante três meses de reabilitação cardíaca. Durante os testes de caminhada, os participantes utilizaram um sensor com eletrocardiograma e acelerômetro.[7] Com esses dados, um modelo de machine learning avaliou variáveis como esforço e resposta cronotrópica, a capacidade do coração de aumentar adequadamente a frequência cardíaca durante o exercício. O modelo conseguiu acompanhar a progressão funcional dos pacientes, apresentando erro médio absoluto de 42,8 metros na estimativa da distância caminhada.[7] Traduzindo: o sistema conseguiu identificar tendências de evolução, mas ainda não substitui uma avaliação funcional completa. O wearable pode mostrar que alguma coisa está mudando. O fisioterapeuta precisa interpretar por que ela está mudando e decidir o que fazer com essa informação. A IA também consegue prever quem vai desistir? Ela está tentando. Um estudo publicado em 2025 utilizou informações de 1.448 participantes para desenvolver modelos capazes de prever a efetividade e a adesão à reabilitação cardíaca.[8] O modelo Random Forest apresentou área sob
Adivinha quem já leu as novas diretrizes do ACSM de 2026? (Spoiler: a gente)
Depois de 17 anos, o American College of Sports Medicine (ACSM) finalmente resolveu atualizar o guia de treinamento de força. Isso mesmo: o documento anterior era de 2009, época em que a gente ainda gravava vídeo em câmera digital e achava que carboidrato de noite engordava. A nova diretriz saiu em março de 2026 e é digna de respeito. Não é achismo de influencer nem “descobri esse segredo na academia”. Os pesquisadores, liderados pelo Stuart Phillips, juntaram 137 revisões científicas com mais de 30 mil participantes. É o maior apanhado de evidências já feito sobre treino de força até hoje. E o recado principal cabe numa frase que a gente adora aqui na RespiCare: Consistência ganha da perfeição. Então o que mudou, na prática? Prepare-se para largar algumas crenças antigas. Precisa treinar até a falha muscular? Não necessariamente. Aquela ideia de que só vale se você sair rastejando do treino caiu por terra. Treinar perto do esforço máximo ajuda, mas ir até a falha total não fez diferença consistente para o adulto saudável médio. Máquina ou peso livre? Tanto faz. Halteres, máquinas, elásticos ou o peso do próprio corpo entregam resultados equivalentes. A escolha deve priorizar o que for mais seguro, confortável e previsível para cada pessoa. (Música para os nossos ouvidos, né?) Aquele programa mirabolante com periodização super complexa? Também não é obrigatório. A variação sofisticada de cargas e séries não se mostrou superior para o adulto comum. O que realmente importa é aparecer, progredir a carga aos poucos e manter o hábito. E o melhor: elástico, exercício com peso corporal e treino feito em casa funcionam. Ganho de força, de massa muscular e de função física acontece mesmo sem a academia dos sonhos. E o que isso tem a ver com fisioterapia respiratória? Tudo. Muita gente ainda separa “treino de força” de “reabilitação”, como se fossem mundos distantes. Não são. Para quem convive com uma condição respiratória, a força muscular é peça central da recuperação: musculatura mais forte significa melhor mecânica respiratória, mais autonomia no dia a dia e menos fadiga para subir uma escada ou carregar a compra. E veja a beleza da nova diretriz: ela valida exatamente o tipo de abordagem que já usamos com nossos pacientes. Elástico em casa. Peso corporal. Progressão gentil e no ritmo de cada um. Sem a pressão de precisar de um equipamento caríssimo ou de um protocolo impossível de manter. A ciência acabou de confirmar, com 137 estudos na mão, o que a prática já mostrava: remover barreiras vale mais do que complicar o programa. O melhor exercício é aquele que a pessoa consegue fazer de forma constante. A equipe RespiCare já está por dentro Enquanto o mundo ainda está descobrindo essas novidades, nossa equipe já revisou o documento e ajustou o que precisava ser ajustado. Continuamos fazendo o que a evidência mais recente recomenda: planos individualizados, acessíveis e sustentáveis, pensados para caber na sua vida real e não na vida ideal de um catálogo. Quer entender como aplicar esses princípios ao seu caso? Fala com a gente. A ciência está do nosso lado, e a gente está do seu. Fonte: American College of Sports Medicine Position Stand, “Resistance Training Prescription for Muscle Function, Hypertrophy, and Physical Performance in Healthy Adults: An Overview of Reviews”, publicado em Medicine & Science in Sports & Exercise, abril de 2026.
Novas Diretrizes para o Manejo das Doenças Obstrutivas em 2026
O que mudou no GOLD 2026 e por que a fisioterapia respiratória tornou-se ainda mais indispensável A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) permanece entre as principais causas de morbidade, incapacidade funcional e mortalidade em todo o mundo. Estima-se que mais de 390 milhões de pessoas convivam com a doença globalmente, sendo responsável por aproximadamente 3,5 milhões de mortes anuais, ocupando atualmente a terceira posição entre as principais causas de morte no planeta (GBD Chronic Respiratory Disease Collaborators, 2020; GOLD, 2026). Diante desse cenário, a publicação anual da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) representa a principal referência científica para o diagnóstico, classificação e tratamento da DPOC. A edição GOLD 2026 trouxe mudanças conceituais importantes, consolidando uma abordagem mais personalizada, preventiva e baseada na atividade da doença, além de reforçar o papel da reabilitação pulmonar e da fisioterapia respiratória como pilares fundamentais do tratamento (GOLD, 2026). Mais do que uma atualização farmacológica, o documento reconhece definitivamente que o tratamento ideal da DPOC depende de uma abordagem multidisciplinar, na qual a fisioterapia respiratória exerce influência direta sobre sintomas, capacidade funcional, número de exacerbações e qualidade de vida. O que é o GOLD? A Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) é uma iniciativa internacional criada em parceria com o National Heart, Lung and Blood Institute (NHLBI) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), cujo objetivo é atualizar continuamente as recomendações baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis para o manejo da DPOC (GOLD, 2026). Todos os anos, centenas de novos estudos clínicos são incorporados às recomendações, permitindo que profissionais de saúde adotem estratégias terapêuticas cada vez mais eficazes. As principais mudanças do GOLD 2026 1. O conceito de “Atividade da Doença” passa a orientar o tratamento Uma das mudanças mais relevantes da atualização de 2026 foi a incorporação do conceito de Disease Activity (atividade da doença). Historicamente, o acompanhamento do paciente baseava-se principalmente na intensidade dos sintomas e na frequência das exacerbações. Entretanto, estudos recentes demonstraram que a DPOC permanece biologicamente ativa mesmo durante períodos aparentemente estáveis, favorecendo perda progressiva da função pulmonar, inflamação sistêmica e piora funcional (Celli et al., 2024). Assim, o GOLD 2026 estabelece como objetivo terapêutico alcançar um estado de baixa atividade da doença, caracterizado por: ● Ausência de exacerbações;● Controle dos sintomas;● Manutenção da função pulmonar;● Preservação da capacidade funcional;● Redução da inflamação;● Estabilidade clínica. Essa mudança aproxima a DPOC do conceito utilizado em doenças reumatológicas e cardiovasculares, em que controlar a atividade da doença é tão importante quanto tratar suas manifestações clínicas. As exacerbações passam a ter maior peso prognóstico.Outra mudança importante diz respeito ao impacto prognóstico das exacerbações.O GOLD 2026 destaca que uma única exacerbação moderada já aumenta significativamente o risco de novos eventos, hospitalizações e mortalidade futura (GOLD, 2026). Por esse motivo, pacientes que anteriormente permaneceriam classificados como baixo risco passam a exigir reavaliação precoce e possível intensificação do tratamento.Estudos recentes mostram que cada exacerbação acelera o declínio do VEF1, aumenta a inflamação sistêmica e está associada a maior mortalidade em médio prazo (Hurst et al., 2010; GOLD, 2026). 3. Medicina personalizada ganha ainda mais espaçoOutra característica marcante das novas diretrizes é a individualização do tratamento.Além dos sintomas respiratórios, passam a ser considerados fatores como:● Eosinofilia periférica;● Frequência das exacerbações;● Fragilidade;● Capacidade funcional;● Presença de comorbidades;● Tolerância ao exercício;● Risco cardiovascular;● Resposta ao tratamento anterior. Essa abordagem permite selecionar intervenções específicas para cada perfil clínico, reduzindo tratamentos desnecessários e melhorando os desfechos clínicos (GOLD, 2026). A Inteligência Artificial chega oficialmente às diretrizesPela primeira vez, o GOLD dedica um capítulo às tecnologias emergentes.São discutidas aplicações envolvendo:● Inteligência Artificial;● Monitoramento remoto;● Telemedicina;● Algoritmos preditivos;● Identificação precoce de exacerbações;● Análise automatizada de exames. Embora ainda em expansão, essas ferramentas prometem tornar o acompanhamento dos pacientes mais preciso e individualizado (GOLD, 2026).O fortalecimento da fisioterapia respiratóriaSe existe uma mensagem clara no GOLD 2026, é que a fisioterapia respiratória não deve ser considerada um tratamento complementar, mas sim um componente essencial do manejo da DPOC O tratamento não farmacológico passa a ocupar posição centralEmbora os broncodilatadores continuem sendo fundamentais, o GOLD 2026 reforça que diversas intervenções modificam efetivamente a evolução clínica da DPOC. Entre elas destacam-se:● Cessação do tabagismo;● Vacinação;● Atividade física regular;● Educação em saúde;● Suporte nutricional;● Reabilitação pulmonar;● Fisioterapia respiratória.Essa valorização decorre da robusta evidência científica acumulada nos últimos anos, demonstrando melhora consistente na sobrevida, capacidade funcional e qualidade de vida (Spruit et al., 2013; McCarthy et al., 2015; GOLD, 2026). Essa valorização decorre da robusta evidência científica acumulada nos últimos anos, demonstrando melhora consistente na sobrevida, capacidade funcional e qualidade de vida (Spruit et al., 2013; McCarthy et al., 2015; GOLD, 2026). Redução da dispneiaProgramas estruturados de fisioterapia respiratória reduzem significativamente a sensação de falta de ar por meio do treinamento da musculatura respiratória, otimização do padrão ventilatório e melhora da eficiência mecânica pulmonar (Spruit et al., 2013).Além disso, técnicas como respiração diafragmática, expiração com lábios semicerrados e exercícios ventilatórios favorecem menor hiperinsuflação dinâmica durante o exercício.Melhora da capacidade funcionalA reabilitação pulmonar promove aumento significativo da tolerância ao exercício, refletido por melhora da distância percorrida no Teste de Caminhada de 6 Minutos (TC6M), redução da fadiga e maior independência funcional (McCarthy et al., 2015).Diversas metanálises demonstram que pacientes submetidos à reabilitação apresentam melhora clínica superior à obtida exclusivamente com tratamento medicamentoso.Fortalecimento da musculatura respiratóriaO treinamento muscular inspiratório tornou-se uma das intervenções mais estudadas na última década.Sua utilização promove:● Aumento da pressão inspiratória máxima (PImáx);● Melhora da resistência muscular respiratória;● Redução da dispneia;● Maior eficiência ventilatória;● Aumento da capacidade inspiratória.Uma revisão sistemática publicada pela European Respiratory Society confirmou benefícios consistentes em pacientes com fraqueza muscular inspiratória (Beaumont et al., 2018).Na RespiCare, esse treinamento é realizado com base em avaliações objetivas da força muscular respiratória, permitindo prescrição individualizada da carga de treinamento.Redução das exacerbações e hospitalizaçõesPacientes submetidos a programas de reabilitação pulmonar apresentam redução significativa das internações relacionadas à DPOC. Uma revisão Cochrane envolvendo dezenas de ensaios clínicos demonstrou redução das readmissões hospitalares e melhora importante da qualidade de vida após programas de fisioterapia respiratória
Fisioterapia cardiovascular na hemodiálise: movimento também é tratamento
Quando falamos em hemodiálise, muitas pessoas pensam apenas na máquina, no tempo de tratamento e nos cuidados com exames, alimentação e medicamentos. Mas existe uma parte muito importante desse cuidado que ainda é pouco lembrada: o exercício físico orientado.